O mercado brasileiro de farelo e óleo de soja atravessou 2025 em um contexto bastante atípico, marcado pela combinação entre uma safra recorde e um ambiente geopolítico que redistribuiu fluxos globais de comércio. Apesar da colheita histórica estimada em 171,8 milhões de toneladas — muito acima das 152,3 milhões de 2024 —, o aumento expressivo da produção não se traduziu em pressão baixista significativa sobre os preços internos. Isso porque a guerra comercial entre Estados Unidos e China alterou o eixo das compras globais: diante da piora no diálogo com Washington, o país asiático priorizou origens sul-americanas, sobretudo Brasil e Argentina, gerando sustentação para a soja e seus subprodutos no mercado doméstico ao longo de todo o ano.
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O ritmo de esmagamento também foi decisivo nesse comportamento. Em 2025, o processamento brasileiro deve encerrar o ano próximo de 58,5 milhões de toneladas, avanço de cerca de 7% em relação às 54,6 milhões do ciclo anterior. A maior oferta de derivados ajudou a pressionar os preços do farelo durante boa parte do ano e, mais recentemente, impediu que o óleo de soja ganhasse tração num ambiente de demanda mais tímida. Ainda assim, o mercado registrou oscilações importantes ao longo do segundo semestre, impulsionadas tanto por fatores externos quanto domésticos.
No caso do farelo, o episódio envolvendo a EUDR (Regulation on Deforestation-free Products) foi um divisor de águas. A perspectiva de que a União Europeia endureceria as exigências de rastreabilidade a partir de 2026 provocou uma onda de recomposição de posições e forte aumento da demanda antecipada, elevando os contratos em Chicago de níveis abaixo de US$ 300 — os menores em mais de dez anos — para patamares acima de US$ 330 em apenas 14 sessões. Esse movimento repercutiu diretamente no Brasil, fortalecendo a paridade de exportação e gerando recuperação das cotações internas entre outubro e o início de dezembro, ainda que parte das altas na CBOT fosse compensada por recuos nos prêmios de exportação. A demanda esteve forte nos portos brasileiros, com compradores europeus buscando posicionar seus estoques antes da data limite para o início da EUDR. No entanto, o impulso perdeu força após a sinalização de que o bloco europeu deve adiar a entrada em vigor da regulamentação para dezembro de 2026, reduzindo a urgência das compras e estabilizando o mercado novamente.
Mesmo assim, a firmeza interna foi reforçada pela combinação entre demanda externa ativa e oferta doméstica mais restrita na entressafra. Os preços médios do farelo nas principais praças de negociação do país, que começaram o ano em torno de R$ 1.968,00 por tonelada, recuaram até R$ 1.538,00 em setembro, refletindo a pressão do grande esmagamento, mas voltaram a subir com a escalada na CBOT. Na primeira semana de dezembro, as médias no país já se aproximavam de R$ 1.700,00, em linha com o cenário externo e com a menor disponibilidade sazonal, agravada pelas paradas de fábricas entre novembro e janeiro.
O óleo de soja também passou por um ano de forte volatilidade, mas por razões distintas. A incerteza em torno do cronograma da mistura obrigatória de biodiesel no Brasil — especialmente o adiamento inesperado do B15 em fevereiro — manteve o mercado interno patinando no primeiro semestre. Apenas em 25 de junho, com o anúncio oficial da adoção do B15 a partir de agosto, a demanda ganhou fôlego, impulsionando uma recuperação rápida dos preços. As principais praças do país saltaram de uma média de R$ 6.064,00/ton em 20 de junho para cerca de R$ 7.050,00 em 20 de outubro. No entanto, o movimento perdeu força no último bimestre: o setor de biodiesel reduziu o ritmo de compras, e a oferta doméstica permaneceu confortável devido ao maior esmagamento no ano. Em dezembro, as médias recuaram para perto de R$ 6.580,00, com o mercado operando de forma mais lateralizada e sujeito a recuos graduais.
No cenário internacional, o óleo de soja encontrou ainda mais dificuldade para sustentar altas, pressionado por fatores como a volatilidade dos mandatos de biocombustíveis nos Estados Unidos, o recuo dos preços do petróleo e a recuperação de oferta global. A sensibilidade do mercado às discussões sobre o Renewable Fuel Standard e às expectativas de mistura de biodiesel nos EUA manteve Chicago instável durante boa parte do segundo semestre, limitando o suporte para o mercado físico no Brasil.
Agora, encerrando um ano marcado por choques externos, revisões regulatórias e um fluxo global de oferta e demanda reconfigurado pela geopolítica, o setor entra na reta final de 2025 com preços mais estáveis, embora ainda sensíveis ao noticiário internacional. A entressafra brasileira traz sustentação natural ao farelo, enquanto o óleo segue influenciado pelo equilíbrio entre oferta confortável e demanda moderada.
O que esperar de 2026
Para 2026, o mercado parte de fundamentos que sinalizam um ano potencialmente mais pesado para as cotações do complexo soja. A projeção inicial para a safra brasileira aponta para algo próximo de 178,7 milhões de toneladas, podendo ser revisada conforme o comportamento climático nas principais regiões produtoras nas próximas semanas. Caso confirmada, será um novo recorde e adicionará pressão sobre os preços domésticos de soja, farelo e óleo na entrada da temporada.
Mesmo inserido em um ambiente geopolítico ainda complexo, com idas e vindas na relação comercial entre China e Estados Unidos, o fluxo global de demanda tende a apresentar maior normalização em 2026. A China já retomou compras de soja norte-americana, ainda em ritmo moderado, mas demonstrando que pretende cumprir o compromisso de adquirir ao menos 25 milhões de toneladas dos EUA ao longo do ano. Esse realinhamento reduz o volume esperado de importações chinesas no Brasil e deve elevar os estoques de passagem brasileiros para algo próximo de 12,8 milhões de toneladas, mesmo que a exportação se mantenha acima de 107 milhões — objetivo que pode se tornar desafiador dentro do novo cenário geopolítico.
Nesse contexto, farelo e óleo entram em 2026 mais vulneráveis à pressão de oferta, especialmente a partir de março, quando a colheita estará avançada e a soja física estará amplamente disponível para a indústria. Naturalmente, isso tende a trazer um patamar de preços mais baixo do que o observado em boa parte de 2025, quando o apoio geopolítico e a firme demanda externa suavizaram o impacto da maior produção.
Outro fator importante para o próximo ano é a expectativa em torno da política de biocombustíveis no Brasil. Apesar do B15 já estar consolidado na maior parte da temporada, o avanço para o B16 dificilmente ocorrerá no primeiro semestre. Indicações recentes do Ministério de Minas e Energia, feitas em eventos do setor no final de 2025, apontam para entraves técnicos, mas pesa também o contexto eleitoral, que reduz a probabilidade de medidas com impacto inflacionário. Isso limita a expansão da demanda pelo óleo de soja e reforça o cenário de estabilidade a leves recuos, especialmente no início do ano.
No plano internacional, seguem as incertezas envolvendo os mandatos de mistura de biocombustíveis nos Estados Unidos. Discussões sobre novos volumes do Renewable Fuel Standard, possíveis ajustes para 2026 e 2027 e a questão das isenções a pequenas refinarias seguem influenciando o humor do mercado e podem gerar volatilidade adicional aos preços em Chicago — especialmente para o óleo, que deve continuar sendo o derivado mais sensível às políticas energéticas.
Enquanto isso, o farelo enfrenta um dilema estrutural: a demanda global cresce em ritmo mais lento do que a do óleo. O setor de biodiesel expande seu consumo por fatores estruturais e político-regulatórios, mas o farelo depende majoritariamente do crescimento orgânico do setor pecuário e da intensificação dos modelos de produção animal. Esse descompasso, somado à tendência de aumento da oferta, indica que o farelo seguirá sob pressão ao longo de 2026, exigindo que o Brasil continue abrindo e consolidando novos mercados externos para evitar recuos mais agressivos no médio prazo.
Em síntese, 2026 se desenha como um ano de safra recorde, geopolítica menos tensionada, menor demanda chinesa por soja brasileira, manutenção do B15 e preços mais acomodados para soja, farelo e óleo diante do cenário de oferta ampla. Um ano que ainda pode trazer volatilidade pontual — especialmente no óleo — mas cujo viés predominante, dado o quadro atual, é de pressão moderada sobre as cotações.

*Gabriel Castagnino Viana é economista com mais de 10 anos de experiência no mercado de soja, especialista em derivados, farelo e óleo. Tem participado de estudos e análises que impactam diretamente a indústria.
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