O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, se reuniu nesta segunda-feira com o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, antes de uma nova rodada de negociação com os Estados Unidos para discutir uma disputa sobre o programa nuclear iraniano que já dura décadas, com poucos sinais claros dos dois lados de que haverá um acordo para resolver o impasse.
O presidente americano, Donald Trump, que se juntou a Israel em uma onda de ataques aéreos contra o Irã em junho do ano passado, ordenou o envio de um segundo porta-aviões ao Oriente Médio, além de outros navios e aeronaves que já haviam sido deslocados para a região, elevando a pressão sobre Teerã.
Aumentando as tensões, o Irã iniciou também nesta segunda-feira um exercício militar no Estreito de Hormuz, uma rota marítima internacional vital, especialmente para a exportação de petróleo dos países do Golfo Pérsico, que vêm pedindo aos dois países uma solução diplomática para pôr fim à disputa.
Os EUA e o Irã retomaram as negociações no início deste mês na esperança de discutir o programa nuclear de Teerã, que Washington, outros países ocidentais e Israel acreditam ter como objetivo a construção de armas atômicas. O Irã nega.
No entanto, o governo Trump tem buscado ampliar o escopo das negociações para temas não nucleares, e incluir, por exemplo, o arsenal de mísseis balísticos do Irã. Durante uma visita à Hungria hoje, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que chegar a um acordo com o Irã será difícil.
“Acho que há aqui uma oportunidade de alcançar diplomaticamente um acordo que trate das questões que nos preocupam. Estaremos muito abertos e receptivos a isso. Mas também não quero exagerar. Vai ser difícil. Tem sido muito difícil para qualquer um fechar acordos reais com o Irã, porque estamos lidando que clérigos xiitas radicais que tomam decisões teológicas, não geopolíticas”, afirmou ele.
Já Araqchi afirmou que estava em Genebra, na Suíça, para chegar a um acordo “justo e equilibrado”. “O que não está em negociação: a submissão diante de ameaças”, afirmou ele em uma postagem no X.
O Irã tem ameaçado fechar o Estreito de Hormuz em retaliação a qualquer ataque, o que afetaria cerca de 20% do fluxo global de petróleo e faria os preços do barril dispararem. A rota marítima conecta alguns dos maiores produtores da commodity, como Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos, ao Golfo de Omã e ao Mar da Arábia.
A agência semi-oficial Tasnim informou hoje que a Guarda Revolucionária do Irã realizou um exercício chamado de “Controle Inteligente do Estreito de Hormuz” para testar a prontidão de suas unidades navais para proteger a rota marítima.
“Utilizar de forma inteligente as vantagens geopolíticas da República Islâmica no Golfo Pérsico e no Mar de Omã está entre os principais objetivos deste exercício”, disse a Tasmin.
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Majid Takht-Ravanchi, sinalizou no domingo a disposição de Teerã de fazer concessões em seu programa nuclear em troca de alívio de sanções, dizendo à BBC que a bola estava “no campo dos EUA para provar que querem fechar um acordo”.
Antes de os EUA se juntarem a Israel nos ataques a instalações nucleares iranianas em junho, as negociações entre Irã e Estados Unidos haviam empacado devido à exigência de Washington de que Teerã abrisse mão do enriquecimento urânio em seu próprio território, algo que os EUA veem como um caminho para uma arma nuclear iraniana.
O Irã afirma que seu programa nuclear tem apenas fins civis e que está pronto para aliviar preocupações sobre armas nucleares ao “construir confiança de que o enriquecimento é e continuará sendo para fins pacíficos”.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que Araqchi discutiu a cooperação com a AIEA, bem como o ponto de vista técnico de Teerã sobre as negociações nucleares com os EUA, durante sua reunião com o chefe da agência nuclear da ONU, Rafael Grossi.
A AIEA vem pedindo há meses que o Irã esclareça o que aconteceu com seu estoque de 440 kg de urânio altamente enriquecido após os ataques israelenses e americanos e permita a retomada completa das inspeções, inclusive em três locais-chave bombardeados em junho do ano passado: Natanz, Fordow e Isfahan.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse no domingo que afirmou a Trump, na semana passada, que qualquer acordo dos EUA com o Irã deve incluir o desmantelamento da infraestrutura nuclear iraniana, e não apenas a interrupção do processo de enriquecimento.
Netanyahu afirmou que é cético em relação a um acordo, mas que ele deve incluir a retirada do material enriquecido do Irã. “Não deve haver capacidade de enriquecimento – não apenas interromper o processo de enriquecimento, mas desmantelar os equipamentos e a infraestrutura que permitem o enriquecimento desde o início”, disse.
