Você consegue imaginar a dor de ver seu próprio pai, que deveria te proteger e cuidar, tirando de você a sua mãe? Destruindo sua família com as próprias mãos?
Etieny, uma moça de Cuiabá, que viveu essa cena inimaginável, resumiu sua dor e revolta numa frase que está ecoando na minha mente o dia todo:
“A primeira pessoa que matou minha mãe foi a justiça”.
Etieny é filha de Luciene Naves Correia, de 51 anos, assassinada pelo marido em Cuiabá. Ele tentou matar as filhas em seguida, e só foi contido porque um vizinho, policial à paisana, atirou nele.
Ela contou que a mãe acionou o botão do pânico duas vezes, e que ela vivia pedindo socorro, inclusive para a família do assassino. Ninguém fez nada, achavam que ele não teria coragem. Como sempre, ninguém quer se incomodar o suficiente com os gritos de uma mulher com medo.
A irmã dela, Emilly, contou que num outro dia quando a mãe acionou o botão do pânico após mais uma ameaça, uma equipe foi até a casa, mas o homem não foi conduzido. O policial só conversou com ela na calçada. No dia do ataque, Emily, que está grávida, só não foi baleada pelo pai porque se trancou em um quarto.
E aí eu te pergunto:
Como pode, o estado com o maior número de feminicídios no Brasil, não ter uma medida efetiva de proteção de uma mulher que implorou por socorro inúmeras vezes? Por que esse homem que jurou lhe matar estava solto? Por que mesmo com medidas protetivas, ela não foi protegida?
A verdade é que a justiça no Brasil não trabalha para proteger a mulher, só trabalha para punir o agressor depois da tragédia, e olhe lá, porque em boa parte dos casos eles são tão covardes que dão cabo da própria vida. Parece que a nossa justiça trabalha muito mais pela vingança do que pela proteção, e isso não condiz com a situação absurda que o Brasil vive, com 4 mulheres assassinadas por dia.
O que é que os senadores que você elegeu estão fazendo para mudar a legislação? Por que não temos um dispositivo na lei que seja mais ágil entre a medida protetiva e a prisão do agressor? Por que não trabalhamos com um belo dia na cadeia para servir de amostra a um homem violento que ameaça matar sua mulher? Por que é que o Congresso não está empenhado na criação desse projeto de lei?
E a pergunta mais importante: por que a sociedade não está preocupada o suficiente com isso?
Há alguns anos escrevi uma série de reportagens para o G1 que mudou a minha vida. Ela se chama “Filhos do feminicídio”, e na ocasião, uma conversa com uma fonte em especial me marcou para sempre. Entrevistei uma moça que vamos chamar de Sandra. Ela tinha 24 anos quando viu seu pai abrir uma gaveta, pegar uma faca e matar sua mãe na cozinha de casa, num dia qualquer, e isso coube numa frase terrível: “Vi meu pai matar minha mãe”. Como colocar esse sentimento em palavras?
Ouvi o relato dela, escrevi minha reportagem e em plenas 23h fui bater na casa da minha mãe apenas para desabar no choro diante dela. Para mim, ela é a criatura mais preciosa do mundo, e cuido dela com todo amor, como não chorar a dor de inúmeros filhos que não poderiam mais abraçar sua mãe graças à maldade do próprio pai? Quem vai curar esses filhos? Quem vai lhes ensinar sobre justiça?
Você não consegue se colocar no lugar dessas filhas. Não consegue imaginar a dor de sua mãe morrer nos seus braços porque seu próprio pai matou, por um simples ego ferido.
O que mais me impressiona é o silêncio do poder público. Porque é muito mais fácil escrever uma nota de condolências do que mobilizar um efetivo para proteger uma mulher ameaçada, e isso deveria ser nosso maior fator de reflexão nesse 2026. Proteger a mulher da violência dentro de casa deveria ser a prioridade número um de quem diz trabalhar pelo bem da sociedade.
A culpa da mulher de Itumbiara
E quando a vítima poderia ser sua mãe?
