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24 de fevereiro de 2026 16:43

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Embrapa decifra genoma de fungo que devastou produção de planta ornamental em Holambra

Foto: André May/Embrapa

Pesquisadores da Embrapa realizaram, pela primeira vez no Brasil, o sequenciamento completo do genoma do fungo Fusarium oxysporum f. sp. cyclaminis, causador da murcha do ciclâmen, uma planta ornamental muito popular.

O avanço científico fortalece as estratégias de controle da doença, que, em 2023, comprometeu mais de 70% da produção de Cyclamen persicum em estufas de Holambra, no estado de São Paulo, um dos principais polos de flores e plantas ornamentais das Américas.

O ciclâmen está entre as plantas ornamentais mais cultivadas no país. Valorizada pelas flores coloridas e pelo longo período de floração, a espécie é amplamente utilizada em jardins e ambientes internos, o que reforça a importância econômica da cultura.

O surto registrado em 2023 foi determinante para a identificação do patógeno como agente causal da doença.

A partir desse episódio, os pesquisadores realizaram o sequenciamento genômico completo da cepa CMAA 1919, atualmente depositada na Coleção de Culturas de Microrganismos de Importância Ambiental e Agrícola da Embrapa Meio Ambiente, em São Paulo.

Além dos prejuízos econômicos, o fungo passou a representar uma ameaça à continuidade da produção dessa cultura ornamental de alto valor.

Segundo o pesquisador Bernardo Halfeld-Vieira, este é o primeiro sequenciamento genômico de um isolado representativo do patógeno no Brasil.

“A sequência genética permite fornecer informações fundamentais sobre sua biologia, patogenicidade e história evolutiva. Na prática, esse progresso abre caminho para o desenvolvimento de estratégias mais precisas de identificação, monitoramento e controle da doença nas áreas de produção”, conta.

Impacto no setor de flores ornamentais

No Brasil, a produção de flores em vasos responde por cerca de 40% do faturamento do setor, que movimenta aproximadamente US$ 3,5 bilhões por ano.

Holambra e municípios vizinhos concentram produtores altamente tecnificados e respondem por uma parcela expressiva desse mercado.

O surto de 2023 trouxe prejuízos significativos. Mais de quatro mil plantas apresentaram sintomas como amarelecimento e murcha das folhas, descoloração vascular e morte dos bulbos.

As perdas elevaram os custos de produção e exigiram a intensificação dos tratamentos fitossanitários nas estufas.

Para o pesquisador André May, o sequenciamento do genoma representa um marco no enfrentamento da murcha de Fusarium em ciclâmen.

“Além de identificar o patógeno com precisão, a análise genômica amplia a compreensão sobre genes associados à virulência, à especificidade do hospedeiro e à adaptação ambiental. Isso permite direcionar melhor as estratégias de manejo e acelerar o desenvolvimento de soluções mais eficazes para o setor”, afirma.

Halfeld-Vieira ressalta que os dados obtidos são fundamentais para estratégias sustentáveis de controle.

Entre elas estão o desenvolvimento de variedades resistentes, a definição de fungicidas mais específicos e o aprimoramento das técnicas de monitoramento e diagnóstico precoce da doença.

Experiências anteriores com outras cepas de Fusarium oxysporum, como a responsável pelo mal-do-Panamá na bananicultura, já demonstraram o potencial do sequenciamento genômico.

Esses estudos permitiram identificar genes-chave e impulsionaram o desenvolvimento de variedades resistentes e métodos de controle mais eficientes.
A expectativa é que avanços semelhantes sejam aplicados no manejo da murcha do ciclâmen.

A pesquisadora Kátia Nechet lembra que, embora a murcha do ciclâmen tenha sido relatada no Brasil desde a década de 1970, a identificação do agente causal se baseava apenas em sintomas visuais e testes de patogenicidade.

“A descrição genômica da cepa CMAA 1919 não apenas confirma a presença do patógeno, mas também estabelece um ponto de partida para pesquisas colaborativas voltadas à compreensão da epidemiologia da doença e dos fatores que influenciam sua disseminação”, destaca.

Impactos futuros no mercado brasileiro

Com o mercado de plantas ornamentais projetado para crescer cerca de 7% nos próximos anos, a sustentabilidade da produção ganha relevância estratégica.
O acesso a dados genômicos detalhados amplia a capacidade de resposta a novos surtos e pode acelerar o desenvolvimento de ferramentas como sondas moleculares para diagnóstico rápido, programas de melhoramento genético e estratégias de manejo mais direcionadas.

A descrição completa do genoma da cepa CMAA 1919 estabelece uma base científica sólida para pesquisas futuras e para a formulação de políticas de prevenção e controle.
Ao integrar biotecnologia e práticas sustentáveis, o setor passa a contar com instrumentos mais eficientes para reduzir perdas, aumentar a produtividade e fortalecer sua competitividade nos mercados nacional e internacional.

A cooperação entre instituições de pesquisa e produtores também se consolida como elemento-chave.

Essa articulação permite antecipar riscos sanitários e mitigar impactos econômicos e ambientais, contribuindo para a resiliência da floricultura brasileira.

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