Honduras volta às urnas neste domingo (30) carregando uma frustração que parecia impensável há quatro anos. Em 2021, a eleição de Xiomara Castro encerrou 12 anos de um governo conservador e autoritário, marcado pela militarização da vida pública, denúncias de corrupção e manipulação eleitoral. A queda de Juan Orlando Hernández, condenado nos EUA por tráfico de drogas e que agora será perdoado por Donald Trump, foi vista como um ponto de inflexão democrático.
A promessa de Xiomara era inaugurar um ciclo minimamente progressista. A agenda incluía reformas institucionais, a reversão da dependência das Forças Armadas para a segurança interna e a criação de uma comissão internacional contra a corrupção. O governo começou com apoio popular e alianças amplas no Congresso. Mas a esperança durou pouco.
A coalizão que a levou ao poder se desfez rapidamente. A influência direta de Manuel Zelaya, seu marido e ex-presidente que foi alvo de um golpe em 2009, reativou antagonismos e alimentou confrontos com o setor privado, a oposição e organizações civis. A comissão anticorrupção nunca saiu do papel. O escândalo envolvendo negociações com narcotraficantes balançou o governo justamente quando buscava se diferenciar do sistema que prometera derrotar. O país, que esperava romper com o autoritarismo, voltou ao ambiente de desconfiança institucional.
Na segurança pública, Xiomara também recuou. Em vez de reduzir a presença militar, declarou estado de emergência para enfrentar gangues e extorsões. A violência caiu nas grandes cidades, mas a militarização geral foi mantida, e as travessias criminosas apenas se deslocaram para regiões rurais. Honduras trocou um modelo de repressão por outro, sem resolver a raiz do problema.
Esse cenário ganhou uma camada adicional: a política migratória dos EUA. O país vive crescente pressão interna para conter o fluxo de centro-americanos que tentam chegar à fronteira. Washington atua diretamente para convencer governos da região a endurecer controles e operações de segurança. Honduras voltou a ser uma plataforma para deportações e rota de passagem para organizações criminosas que lucram com o desespero dos migrantes. A política externa americana passou a influenciar de forma direta a dinâmica interna do país.
Assim, a eleição se transformou em um campo de disputa geopolítica. A embaixada dos Estados Unidos expressou temor de fraude e de intimidação de autoridades eleitorais. Trump decidiu intervir de forma explícita, endossando o candidato conservador Nasry Asfura e classificando os adversários como ameaça à liberdade. Honduras chega ao pleito sob tutela diplomática e militar americana e com o debate público capturado pela polarização.
Entre o governo conservador de Hernández e o mandato teoricamente de esquerda de Xiomara, o país experimentou dois projetos opostos que fracassaram em entregar segurança, emprego e estabilidade institucional. Honduras vota novamente, mas os mecanismos de exceção permanecem, a pressão externa aumenta e a crise não parece perto do fim.
A entrada direta de Donald Trump na campanha hondurenha mostra que essa política de ingerência externa não acabou. Ao contrário, repete-se agora em Honduras e contribui para tornar o ambiente regional ainda mais tenso e imprevisível.
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