Um amigo devotou um ano de sua vida à leitura de “Guerra e Paz”, de Tolstói, e à exploração de sua vasta fortuna crítica. Não fez uma única anotação enquanto lia, não tomou o lápis na mão para um grifo, atravessou as mil páginas deixando-as ainda brancas, imaculadas pela travessia. Aquilo me espantou, diria até que me afligiu. Pensei: que absurda confiança em sua memória, que falta de vislumbre do esquecimento que tudo há de consumir. Pensei, por outro lado: que bonita entrega ao presente, a uma experiência que vale por si mesma, a leitura a constituir uma vida sem finalidade última, sem retorno futuro, sem utilidade.
Não sei bem o que lhe disse, sei que consegui contagiá-lo com minha aflição ridícula. Depois me pus a ler outro livro, e a grifar página por página o livro que lia, todo cheio de achados retóricos e frases luminosas, um livro que em dado instante se punha a maldizer os grifos. Fabio Morábito, em “O idioma materno”, contava de seu próprio amigo viciado na vaidade dos grifos, incapaz de ler sem um lápis na mão, sublinhando de maneira compulsiva. Um amigo que queria escrever mas nunca chegava às palavras próprias, e por isso fazia da mania do grifo sua forma pessoal de escrita, ainda que estéril, vazia.
Estranhei a antipatia de Morábito pelo hábito de sublinhar livros, me senti até um pouco atacado por alguém que nunca me conheceu, que nunca soube que eu também não leio nada sem um lápis na mão, sem a chance de agir sobre as páginas com um rabisco. Em sua visão, entendi, o grifo tem algo de intervenção violenta, de discriminação frásica, sendo uma forma literária de abuso. Não concordei, continuei grifando enquanto ele criticava os grifos. Sublinhei: “os grifos se multiplicam, uma praga se apodera do livro, surge outro livro em seu interior, uma república autônoma”. Não pude senão grifar, como forma de apreço pelo livro que muito me agradava, mas também como provocação silenciosa, registro ainda ridículo da minha discordância.