13/01/2026

13 de janeiro de 2026 19:47

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Sobre a vida e a arte imprevisíveis, esquivas a qualquer resposta

Acho que não guardo nenhum trauma dessa derrota, que não me pesou tanto a desilusão, a passagem à realidade. Guardo talvez uma lição, a mesma que tentava me ensinar o chimpanzé em meu quarto. Que cada um se lança no mundo sem saber as condições que encontrará, lança-se ao mar num barquinho cujo mastro pode estar rachado, correndo o risco de se ver sem destino, à deriva entre as ondas altas demais. Que cada um projeta, calcula, imagina os próximos passos, mas nunca de fato antevê os contratempos e obstáculos, nunca vislumbra as reais condições com que há de se deparar, entregando-se em vez disso ao magnetismo do acaso.

“Ontem choveu no futuro”, diz um célebre verso de Manoel de Barros. Como todo bom verso, seu sentido é esquivo, pode ser que ele esteja falando de um futuro já devastado pelo passado, ou o contrário, de um passado que fertiliza o futuro e o renova. Seja como for, passado e futuro se encontram numa dimensão que foge ao nosso domínio imediato, e nós ficamos restritos a um presente imóvel, sem duração nem continuidade. Sem respostas claras sobre a vida, não é raro que o sujeito se deixe paralisar pela insensatez de tudo, pela imprevisibilidade de qualquer resultado, perdendo a esperança numa ação própria.

Mas gosto da variação que utiliza Douglas Germano num de seus belíssimos sambas, devolvendo a mão humana a essa imbricação de tempos que nos espanta:

“Ontem caiu uma pedra lá fora, que o lançador só vai lançar agora”. Sinto que, nesse outro verso, saímos do estado de desorientação que paralisa o sujeito, passamos à sua ação de efeitos imprevisíveis, embora nunca aleatórios. Eis a condição de toda arte, talvez de toda vida. Lançamos uma pedra no vazio, como um livro no mundo, como um beijo na boca de alguém que se gosta, sem saber o que nos espera no instante próximo, e sem saber que esse instante está moldado por muitos outros já passados, sendo portanto sua consequência inevitável.

Mas aqui não quero me fazer assertivo demais, não quero alcançar com minhas palavras nada que se pareça a uma resposta. Já aprendi que, no momento em que chegar a responder algo, a pergunta não valerá mais nada.

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