E é aqui que o esporte entra, porque ele não chega mais “neutro” aos países-sede. A FIFA incorporou formalmente compromissos com direitos humanos, exigindo que países anfitriões garantam segurança, não discriminação e liberdade de expressão a atletas, jornalistas, trabalhadores e torcedores. A Copa não é apenas um evento esportivo; é um ambiente jurídico temporário, com obrigações claras assumidas em contratos e regulamentos.
A experiência recente mostra que isso não é abstração. Em outras Copas e Jogos Olímpicos, políticas internas de Estados-sede foram questionadas — de direitos trabalhistas a liberdade de imprensa. O diferencial agora é que a política migratória americana afeta diretamente o acesso ao evento: entrada no país, controle em aeroportos, abordagens policiais, perfilamento racial e risco de detenções arbitrárias. Para muitos torcedores, especialmente latino-americanos, africanos e árabes, a viagem pode deixar de ser festa para virar incerteza.
O histórico recente do esporte também pesa. Após a invasão da Ucrânia, o movimento esportivo abandonou de vez o conforto da neutralidade absoluta. Sanções, exclusões e restrições simbólicas mostraram que o esporte escolhe quando entende que valores fundamentais foram violados. Isso criou uma expectativa legítima: se direitos humanos importam, eles importam sempre, inclusive quando o país-sede é o centro do sistema.
A Copa de 2026 coloca o esporte numa posição delicada. Não se trata de boicote, nem de histeria. Trata-se de prevenção, coerência e responsabilidade institucional. FIFA, comitês organizadores e autoridades americanas precisarão responder, com transparência, a perguntas objetivas: haverá garantias claras contra discriminação? Protocolos para proteger torcedores estrangeiros? Treinamento específico de forças de segurança? Compromissos públicos verificáveis?
Ignorar o tema não o fará desaparecer. Pelo contrário: a ausência de respostas amplia o risco. O maior perigo não é um incidente isolado, mas a normalização de práticas que afastem torcedores, inibam a circulação e transformem a Copa num evento juridicamente blindado por dentro, e socialmente hostil por fora.
No fim, a questão é maior que futebol. Uma Copa do Mundo só é segura quando todos se sentem seguros: quem entra, quem trabalha, quem torce, quem protesta. Se o esporte quiser sustentar o discurso de direitos humanos que ele próprio escolheu adotar, precisará olhar de frente para a política migratória dos EUA. Porque, em 2026, a fronteira também será parte do jogo.