Além dos três anos do “Dia da Infâmia”, o 8 de janeiro de 2026 marcou o 30º aniversário da redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos do Valongo, localizado no Rio de Janeiro. O achado arqueológico de 1996 jogou luz sobre a escravização negra no país e deu o pontapé inicial do processo de preservação da cultura africana no Brasil.
Localizado por acaso durante obras num imóvel residencial, o Cemitério dos Pretos Novos trouxe à superfície ossos humanos inteiros e fragmentados, cacos de louças, contas de colares, restos de metais e objetos datados do século 19. Os vestígios deram materialidade a um crime desumano praticado contra os negros e ocultado pelo Estado.
Cemitérios de pessoas escravizadas são solo sagrado. São locais “habitados” por seres humanos submetidos às piores condições até na morte. Na Gamboa, o achado fortuito levou à criação do Instituto dos Pretos Novos (IPN), que se tornou “guardião da memória africana e afro brasileira na Zona Portuária do Rio”, como define o historiador Cláudio Honorato.
Apesar da extrema relevância do achado arqueológico, são inúmeras as dificuldades enfrentadas para custear as atividades realizadas pelo IPN, que desenvolve um trabalho de preservação da história negra no Brasil. “Não há política pública nem empresas interessadas em patrocinar um cemitério de pretos”, diz Merced Guimarães dos Anjos, presidente do IPN e dona do imóvel onde está localizada a necrópole.
Mas há conquistas a celebrar nestes 30 anos. A mais recente delas é a inauguração ainda neste ano do Espaço Cultural Pretos Novos, que funcionará atrás do Cemitério, num sobrado da rua do Livramento cedido em comodato ao IPN, conta dona Merced.
Cemitérios de pessoas escravizadas revelam o que a história oficial quis apagar, mas o tempo se encarregou de revelar. A preservação desses espaços é ato de resistência, de reparação e de afirmação da importância da contribuição negra para a construção do Brasil. Salve o solo sagrado da Gamboa.
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