O Pantanal não se transforma apenas ao nível do solo, quando campos alagam e rios avançam sobre a planície. Um estudo desenvolvido em Poconé (MT) mostra que a mudança das estações também reorganiza a vida lá no alto, na copa das árvores.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal analisaram comunidades de besouros da família Nitidulidae que vivem no dossel, a parte superior da floresta, e identificaram diferenças marcantes entre o período seco e o chuvoso, além de variações conforme o tipo de vegetação.
A pesquisa lança luz sobre um universo pouco visível do bioma e reforça uma ideia central da ecologia pantaneira, o Pantanal não é apenas água e terra firme, mas também um sistema tridimensional, onde até a “cidade aérea” formada pelas copas muda de configuração ao longo do ano.
Vida aérea moldada pelo pulso das águas
O estudo foi realizado em áreas do Pantanal de Poconé, comparando dois tipos de fitofisionomia, as áreas monodominantes, onde uma única espécie arbórea predomina, e as não monodominantes, mais diversas. Em cada ambiente, os pesquisadores coletaram besouros que vivem na copa das árvores durante a estação seca e a estação chuvosa.

Os resultados indicam que a composição e a abundância das espécies variam significativamente conforme o regime hídrico. Durante a cheia, quando o solo fica alagado, a copa das árvores se torna um refúgio ainda mais estratégico para muitos insetos, concentrando recursos e oferecendo abrigo contra a inundação.
Já na seca, quando o ambiente se torna mais acessível no nível do solo, a dinâmica muda novamente, com alterações na disponibilidade de alimento, microclima e interação entre espécies.
Por que os besouros Nitidulidae importam
Os besouros da família Nitidulidae, foco do estudo, são considerados indicadores ambientais. Eles se alimentam de frutos, seiva, matéria orgânica em decomposição e fungos, desempenhando papel importante na reciclagem de nutrientes e nos processos ecológicos das florestas.
Por responderem rapidamente às mudanças ambientais, esses insetos ajudam a entender como o ecossistema reage a variações naturais, como as cheias sazonais, e também a pressões externas, como alterações climáticas e mudanças no uso do solo.
Segundo os pesquisadores, observar o comportamento desses besouros no dossel permite identificar impactos que passariam despercebidos se a análise se limitasse ao solo.
Dossel, um mundo ainda pouco estudado
Apesar de sua importância, o dossel é uma das partes menos estudadas do Pantanal. O acesso difícil e a logística complexa fazem com que muitas pesquisas se concentrem nos ambientes terrestres ou aquáticos. O trabalho do INPP reforça que ignorar a copa das árvores é deixar de lado uma peça fundamental do funcionamento do bioma.
A pesquisa mostra que o Pantanal funciona como um sistema integrado, em que água, solo e copa estão interligados. Mudanças no regime de cheias afetam não apenas peixes, jacarés e aves, mas também insetos que vivem a dezenas de metros do chão.
Alerta para mudanças climáticas
Além de ampliar o conhecimento científico, o estudo acende um alerta. Alterações no padrão das cheias, associadas às mudanças climáticas e à intervenção humana nos rios que alimentam o Pantanal, podem provocar efeitos em cascata, atingindo até organismos aparentemente distantes da água.
Com cheias mais curtas, secas prolongadas ou eventos extremos, a “cidade aérea” do Pantanal pode sofrer desequilíbrios, com reflexos na polinização, decomposição e na cadeia alimentar como um todo.
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