Para muitos, a corrupção é vista sobretudo como um desvio ético de agentes públicos, que deve ser combatido por razões morais. Esse é um ângulo relevante: causa repulsa o uso da máquina pública para fins privados. Mas os efeitos da corrupção sobre a economia também merecem atenção. Eles não se limitam aos desvios de recursos públicos —isto é, não aparecem apenas no Orçamento. Manifestam-se no crescimento e no dinamismo econômico, já que o funcionamento das instituições governamentais influencia decisões de investimento, empreendedorismo e inovação.
É nesse contexto que a corrupção pode, em tese, tanto aumentar quanto reduzir o crescimento. De um lado, há o argumento de que ela poderia “lubrificar as engrenagens” da economia, ao contornar atrasos burocráticos ou funcionar como uma forma de remuneração informal por produtividade. De outro, ela altera incentivos e afeta a alocação de recursos, seja ao favorecer empresas pouco produtivas, seja ao direcionar talentos para atividades improdutivas de captura de renda (rent seeking).
Ainda que o efeito teórico possa ir nas duas direções, a evidência empírica indica que o impacto negativo predomina. Um dos principais estudos a chegar a esse resultado explora, justamente, o contexto brasileiro.
Estabelecer o efeito da corrupção sobre o desempenho econômico é um grande desafio, já que países mais corruptos costumam apresentar arcabouços legais frágeis, menor renda, pior educação e baixa capacidade estatal —fatores que, por si só, reduzem o crescimento. No Brasil, entretanto, auditorias federais em municípios, implementadas por meio de sorteios, geraram variações no nível de corrupção local não relacionadas a outros determinantes do crescimento econômico. Esse contexto permite identificar de forma convincente o custo econômico da corrupção.
Após as auditorias, os municípios fiscalizados passam a registrar maior atividade econômica: aumenta o número de firmas, crescem as vendas, expande-se o crédito bancário e se intensifica a entrada de empresas em setores dependentes de contratos públicos. Longe de “atrapalhar” o funcionamento da economia, o combate à corrupção associa-se a maior dinamismo produtivo no nível local.
Mais importantes, contudo, são os mecanismos por trás desses efeitos. A corrupção atua como um imposto seletivo, que não incide igualmente sobre todas as empresas. Firmas politicamente conectadas tendem a ser protegidas, enquanto concorrentes mais eficientes —mas sem acesso privilegiado ao poder público— enfrentam maiores barreiras para operar, crescer ou entrar no mercado. O resultado é uma distorção do processo competitivo, em que a sobrevivência das empresas depende menos da produtividade e mais das conexões.
Essa lógica gera uma má alocação de capital e trabalho: recursos deixam de fluir para as firmas mais produtivas e permanecem presos em empresas menos eficientes, reduzindo a produtividade agregada. Na prática, a corrupção equivale a um imposto significativo sobre as firmas, com efeitos comparáveis aos de tributos elevados —mas sem transparência, previsibilidade ou retorno social.
Quando a corrupção define quem cresce, quem investe e quem sobrevive, seus efeitos deixam de ser pontuais e passam a comprometer o desempenho econômico como um todo. Instituições que premiam conexões em vez de produtividade produzem menos crescimento, menos inovação e menos desenvolvimento.
Reduzir a corrupção é, portanto, condição fundamental de eficiência econômica.
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