Pesquisadores brasileiros estão na Antártica investigando fenômenos que ajudam a compreender o funcionamento do clima global. Entre eles está a bióloga de Cáceres (MT), Gabriela Elidio, formada pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e atualmente mestranda do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). A cientista integra uma expedição do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), uma das principais iniciativas de pesquisa do país no continente gelado.
Gabriela atua em um estudo desenvolvido pelo Laboratório de Extremófilos Marinhos (ExtreMar), do IO-USP, que investiga como micro-organismos marinhos podem ser transportados do oceano para o interior da Antártica pelo ar, por meio de bioaerossóis (partículas de origem biológica, como bactérias, fungos, vírus, pólen e fragmentos celulares).
“A gente estuda como micro-organismos, que vivem no oceano, conseguem sair da superfície do mar e ser levados pelo vento até o interior do continente”, explicou. Segundo ela, ainda há muitas questões em aberto sobre esse processo.

Importância da pesquisa para o clima global
Apesar de ocorrer em uma região remota, a pesquisa realizada na Antártica tem impacto direto no entendimento do clima em escala global. O continente antártico desempenha papel essencial na regulação dos sistemas atmosféricos e oceânicos do planeta, influenciando padrões climáticos que afetam diversas regiões, inclusive o Brasil. “Mesmo sendo um estudo local, a Antártica tem um papel fundamental na regulação do clima global”, destacou Gabriela.
Compreender como micro-organismos circulam entre o oceano e o continente ajuda a ampliar o conhecimento sobre processos naturais ainda pouco explorados e sobre possíveis mudanças em curso no ambiente antártico. “Entender o que está mudando aqui ajuda a compreender processos climáticos que afetam outras regiões do planeta”, completou.
Da Unemat à pesquisa na Antártica
A trajetória de Gabriela Elidio até a Antártica começou ainda na graduação em Biologia na Unemat, em Cáceres. Segundo a pesquisadora, o período foi marcado pela busca constante por oportunidades acadêmicas, como estágios e experiências fora da universidade. “Durante a graduação na Unemat, eu era muito inquieta. Vivia mandando e-mails para professores de outras universidades em busca de estágios”, relembrou.

O interesse pela biologia polar ganhou força durante a pandemia, após ela assistir a uma palestra organizada pela Unemat sobre pesquisas científicas na Antártica. “Minha história com a biologia polar começou na pandemia, quando assisti a uma palestra no YouTube organizada pela Unemat”, contou. Na ocasião, um detalhe específico chamou sua atenção. “Quando ela falou sobre um vulcão ativo na Antártica, eu me apaixonei. Para mim, parecia ficção científica”.
Desde então, Gabriela direcionou sua formação acadêmica para a área, o que a levou ao mestrado no Instituto Oceanográfico da USP e à participação em pesquisas desenvolvidas no continente antártico. “Quando descobri que o Brasil fazia pesquisas na Antártica e que era possível ir para lá, fiquei completamente fascinada”.
Desafios da pesquisa no continente gelado
Após a aprovação no mestrado e a realização do Treinamento Pré-Antártico, a pesquisadora passou a integrar uma missão científica do Proantar. Na Antártica, a rotina de trabalho envolve frio intenso, ventos constantes, turnos prolongados e protocolos rigorosos para evitar a contaminação das amostras. “Parece que a gente está dentro de um freezer o tempo todo, e ainda precisa ter muito cuidado para não contaminar o material coletado”, relatou.

As coletas dependem diretamente das condições do mar e do clima, que podem mudar rapidamente. Além disso, parte das atividades ocorre durante a noite e a madrugada, exigindo resistência física e concentração. “Se o vento está muito forte ou o mar agitado, as operações acabam parando”, explicou. Mesmo diante dos desafios, Gabriela destaca a experiência como um privilégio. “São poucos os pesquisadores que conseguem estar aqui, então eu me sinto muito grata por fazer parte dessa missão”.

A pesquisadora também ressalta a estrutura do Programa Antártico Brasileiro, que conta com o apoio da Estação Antártica Comandante Ferraz, de navios da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira, garantindo segurança e suporte às atividades científicas. “Existe um planejamento enorme para que tudo aconteça com segurança, envolvendo muitas instituições e profissionais”, pontuou.

Para Gabriela, a atuação na Antártica representa um marco na vida pessoal e profissional, ampliando a formação acadêmica e contribuindo para a produção de conhecimento científico brasileiro em uma das regiões mais estratégicas do planeta. “Ainda estou entendendo o impacto de tudo isso, mas sei que essa experiência vai me acompanhar para o resto da vida”.
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