Quem diria que a independência do Banco Central morreria antes nos EUA do que no Brasil. Ainda é cedo para declarar o óbito, mas o vídeo do presidente do Fed Jerome Powell acusando as manobras jurídicas do governo Trump para persegui-lo é mais um passo preocupante nessa direção.
Os passos se sucedem. Além da pressão para que o Fed reduza a taxa básica de juros, temos ainda as seguintes medidas econômicas anunciadas por Trump: limite de 10% ao ano aos juros do cartão de crédito, limitações à compra de imóveis residenciais por grandes empresas, promessa de cheques de US$ 2.000 a cidadãos para estimular a demanda, ordenou que agências de crédito comprem US$ 200 bi de ativos lastreados em hipotecas para baratear o acesso a moradia. Um receituário perfeito para bagunçar ainda mais a economia, que já começa a sentir os efeitos do tarifaço.
Trump não só capturou Maduro como importou também as ideias do ex-ditador. E o mais preocupante não está nem na economia. Enquanto leva adiante sua guinada heterodoxa na economia, a polícia imigratória, que conta com financiamento vitaminado em 2026, mata cidadãos na rua e vai se tornando uma espécie de milícia pessoal do presidente da República, defendida efusivamente pelo regime.
No plano global, Trump estraçalha qualquer ilusão de uma ordem internacional baseada em regras. É verdade que governos anteriores também descartaram o direito internacional quando lhes foi conveniente; por exemplo, na invasão ao Iraque. Diferentemente da invasão do Iraque, contudo, a intervenção na Venezuela não foi discutida previamente no Congresso americano, não buscou aprovação na ONU e não formou uma coalizão com outros países democráticos.
E agora novas intervenções se apresentam em Cuba e no Irã, talvez no México. Tudo isso parece de pouca monta quando consideramos a possibilidade da anexação da Groenlândia contra a vontade da Dinamarca. Se invadir —ou mesmo se forçar a Dinamarca a vender— a Groenlândia, é o fim da Otan e a da aliança militar que definiu a defesa do mundo democrático nos últimos 80 anos.
O mundo parece estar em rápida transição. Não sabemos para o quê, mas está claro que não é para um mundo mais estável, democrático e pacífico.
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Trump jamais poderia fazer isso sozinho. Se ele tem esse poder é porque uma fatia da sociedade está com ele. E não poderá levar o terremoto adiante sem passar pelas eleições do Congresso neste ano, que prometem ser decisivas.
Se, refletindo a queda de popularidade de Trump, os democratas retomarem o controle do Congresso, isso imporá limites claros ao presidente e deve marcar o início da derrocada do governo. As eleições pontuais de 2025 deram algum fôlego à oposição. A democracia é assim: entre trancos e barrancos o povo vai testando e aprendendo.
Se, ao contrário, os republicanos conquistarem as duas Casas, Trump não sairá apenas fortalecido, mas legitimado. Atacou o Banco Central, dobrou o Congresso, desmoralizou alianças históricas, promoveu o caos econômico, alimentou a violência de sua guarda pretoriana, levou a corrupção a novos patamares e usou da força sem pudor em nome da ambição nua e crua; e, mesmo assim, é aclamado por uma maioria do povo. Nesse caso, o que vimos até agora e o que veremos até outubro terá sido apenas o começo…
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