Os minerais voltaram ao foco, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciando na quarta-feira (21) que havia chegado a um possível acordo sobre a Groenlândia, que incluiria direitos sobre minerais de terras raras.
Minerais críticos e de terras raras são a base de tecnologias que impulsionam a transição para energia limpa, inteligência artificial (IA) e equipamentos militares avançados, entre outros, e a produção é dominada pela China. O país controla mais de 90% da produção mundial de terras raras refinadas e mais de 60% da produção de mineração de terras raras, segundo a Agência Internacional de Energia.
Em entrevista à CNN na semana passada, durante o Future Minerals Forum (Fórum de Minerais do Futuro, em tradução livre) em Riad, na Arábia Saudita, Abigail Hunter, diretora executiva do Centro de Minerais da SAFE (Securing America’s Future Energy), uma organização não governamental, descreveu a China como estando “anos-luz à frente” dos EUA, “devido a décadas de investimentos estratégicos, projetos apoiados pelo Estado, coordenação com o setor privado e investimentos internacionais”.
Mas agora a Arábia Saudita está expandindo o setor mineral para reduzir a dependência econômica do petróleo e, segundo analistas, aumentar a influência geopolítica.
A Arábia Saudita afirma possuir US$ 2,5 trilhões em reservas minerais. Estas incluem ouro, zinco, cobre e lítio, mas também depósitos de terras raras, como disprósio, térbio, neodímio e praseodímio, utilizados em diversos setores, desde carros elétricos e turbinas eólicas até computação de alta velocidade.
O orçamento da Arábia Saudita para exploração mineral aumentou 595% entre 2021 e 2025, de acordo com a S&P Global (embora ainda seja modesto se comparado a países com mineração avançada, como Canadá e Austrália). O licenciamento de novas áreas de mineração para empresas nacionais e internacionais tem se intensificado.
Mas exploração é uma coisa, produto final é outra. “A realidade é que a mineração é um processo de longo prazo”, afirmou Hunter. “Leva de três a cinco anos para construir uma planta de processamento. Em algumas jurisdições, pode levar até 29 anos”, acrescentou.
O país está reduzindo a burocracia, diminuindo as taxas de impostos para investimentos em mineração e pretende investir pesado para alcançar as empresas já estabelecidas no setor.
No Future Minerals Forum, a mineradora estatal Maaden anunciou que investirá US$ 110 bilhões em metais e mineração na próxima década, incluindo parcerias internacionais e a atração de talentos do setor. “Somos humildes o suficiente para reconhecer que não podemos fazer isso sozinhos”, declarou o CEO da Maaden, Bob Wilt, durante o evento.
O valor dos minerais da Arábia Saudita ainda é insignificante em comparação com o valor do petróleo (a Arábia Saudita possui a segunda maior reserva comprovada do mundo). Mas existem outros motivos pelos quais o país está investindo no setor.
O plano Visão 2030 da Arábia Saudita visa diversificar a economia do país e elege a mineração como um pilar fundamental. O plano vai além da simples extração de minerais e inclui a expansão da cadeia de suprimentos para as indústrias nacionais — por exemplo, o país estabeleceu metas ambiciosas para a fabricação de veículos elétricos.
Especialistas afirmam que a crescente infraestrutura da Arábia Saudita também pode posicionar o país como um polo regional para o refino de minerais críticos extraídos em outros lugares.
“Olhando para o sul global e estabelecendo parcerias com países africanos… logisticamente, faz muito sentido para nós podermos processar mais minerais aqui”, disse Hunter.
As ambições da Arábia Saudita despertaram o interesse dos EUA. No passado, após extrair as próprias terras raras pesadas, os EUA enviavam o material para a China para refino. No ano passado, a China intensificou os controles de exportação de terras raras pesadas, muitas das quais têm aplicações militares.
Em novembro passado, durante uma visita de Estado a Washington, a Arábia Saudita anunciou que investiria até quase US$ 1 trilhão em infraestrutura, tecnologia e indústria nos EUA. Parte desse acordo incluía uma colaboração bilateral em minerais. A empresa americana MP Materials (apoiada pelo Pentágono) anunciou que faria uma parceria com a Maaden e o Departamento de Defesa dos EUA para construir uma nova refinaria na Arábia Saudita, que seria 49% de propriedade da MP Materials e do Departamento de Defesa.
Melissa Sanderson, copresidente do Instituto de Minerais Críticos, um centro de estudos, afirmou que o maior trunfo da Arábia Saudita como polo de processamento é a “quantidade confiável de energia”, juntamente com a expertise da empresa estatal de energia Aramco, que poderia desenvolver metodologias de refino aprimoradas, “potencialmente substituindo a China como processadora de menor custo e mais ambientalmente sustentável”, especulou ela.
As credenciais ambientais ainda precisam ser comprovadas. A Arábia Saudita esteve entre um grupo de países ricos em recursos naturais que, na recente Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, se opuseram a parte de um projeto de resolução de um tratado que busca maior transparência na cadeia de suprimentos e a limitação dos danos ambientais da mineração.
Sanderson indicou que a transição para um polo de mineração pode não ser um processo totalmente tranquilo. A instabilidade no Oriente Médio continua sendo um desafio, juntamente com as relações diplomáticas complexas entre a Arábia Saudita e as nações africanas ricas em minerais. Dito isso, a Arábia Saudita poderia recorrer aos países da Ásia Central, que também possuem depósitos minerais, com os quais a Aramco mantém relações de longa data, afirmou ela.
“De muitas maneiras, as transformações econômicas em curso (na Arábia Saudita) visam mais elevar a posição política do país… (para) um ator essencial — um ponto de inflexão, por assim dizer — em um cenário geopolítico”, destacou Sanderson.
“Este não é um jogo de retorno imediato”, apontou. “Esta é uma estratégia voltada para o poder, a influência e o ganho a longo prazo”, concluiu.
