Na semana passada, elogiei o ensaio “The Other Invisible Hand” (A outra mão invisível), do intelectual meu amigo Jag Bhalla, sobre como a boa biologia acompanha a boa economia. A melhor biologia vem de Darwin, é claro, e Darwin foi inspirado pela economia. Ele estava lendo Malthus e lhe ocorreu que as mesmas adaptações para a sobrevivência das populações humanas poderiam ser aplicadas de forma mais geral. Ele precisava de um mecanismo para justificar sua teoria polêmica de que as espécies não foram criadas por Deus, de uma vez só, mas evoluíram. A tentativa e erro na busca incessante pela prosperidade foi a resposta.
E é boa economia também; melhor, na verdade, que a principal alternativa moderna, que Jag e eu rejeitamos. A alternativa é supor que a economia é uma máquina de entrada e saída que é maximizada por… quem? Na antiga visão teísta, por Deus. Na visão moderna e da engenharia social, pelo economista e o político.
Mas a evolução não funciona assim, de cima para baixo. Ela funciona de baixo para cima. Uma espécie de ave das Ilhas Galápagos se sai melhor se seu bico for mais eficiente para pegar um determinado tipo de fruta. O bico mais eficiente “acontece” por tentativa e erro, não pela ave ou por um economista aviário maximilizá-lo “racionalmente”.
Assim é na economia. A maioria das inovações não tem sucesso. Mas, no curso normal das coisas, as falhas são logo substituídas por outras tentativas, até que uma tenha êxito. Físicos e inventores sabem há décadas que forçar corrente elétrica através de um filamento poderia produzir luz. Eles tentaram e tentaram. Então Edison conseguiu. É verdade que ele tentava ganhar dinheiro, como um suposto gene egoísta. Mas nenhum de “nós”, estava administrando a economia na qual Edison trabalhava, deixando de lado a polidez comum e o direito contratual.
A economia como um todo, assim como a ecologia como um todo, ou a língua portuguesa como um todo, ou sua vida individual como um todo, são tentativa e erro. A economia e a ecologia não são máquinas de entrada e saída. Como você conheceu seu cônjuge? Foi o que eu pensei: aleatoriamente, não é? Mas meu amigo Jag conclui que reconhecer a boa biologia “exigirá uma revisão completa dos reflexos de rejeição à regulação dos defensores do livre mercado”.
Espere um pouco. A “regulação” na biologia evoluiu, como Jag enfatiza corretamente, ao longo de milhões de anos, de baixo para cima. Mas as “regulações” que ele defende na economia —controle de aluguéis, bancos centrais, protecionismo comercial, subsídios a grupos privilegiados— “evoluem” em dez segundos de pensamento de cima para baixo, digamos, na mente de Donald Trump.
“Devemos proteger explicitamente nossos… veículos de sobrevivência: comunidades, cidades, nações, chegando a toda a biosfera planetária”, diz Jag.
Espere um pouco. O “nós” não é a sabedoria da evolução, mas as ideias do atual rebanho de mentes independentes. Supor que, por exemplo, leis antitruste contra a Amazon sejam uma boa ideia é supor que economistas pró-Estado acertaram na teoria e que uma regulamentação inteligente será aplicada por políticos altruístas e virtuosos.
Eu tenho dito que muitos economistas não acertam na teoria, e você sabe que a maioria dos políticos não é altruísta e virtuosa.
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