O que pode acontecer com os biomas brasileiros
A Amazônia atravessa um momento crítico. Em toda região sul da bacia, do oceano Atlântico até a Bolívia, a estação seca ficou de 4 a 5 semanas mais longa no período de 40 a 45 anos, ficando uma semana mais longa por década. Também está de 20% a 30% mais seca e entre 2ºC e 3°C mais quente. No sudeste da bacia, a floresta tornou-se fonte de carbono, indicando estar muito próxima do ponto de não retorno.
A floresta já perdeu parte da capacidade de reciclar a própria chuva. Isso enfraqueceu os “rios voadores” que abastecem de água o Cerrado, o Pantanal e uma parte significativa da Mata Atlântica. Se esta tendência continuar, a Amazônia pode perder a capacidade de se manter úmida e biodiversa, comprometendo a oferta de serviços ecossistêmicos ligados às atividades agrícolas e à saúde do povo brasileiro.
No Cerrado, as temperaturas sobem mais rápido que a média global, já superando 2°C. Entre 1990 e 2020, uma área de 230 mil km² no leste do bioma próximo à Caatinga passou a ter clima mais seco e quente, com características típicas de regiões semiáridas. Entre 2008 e 2023, o bioma perdeu mais de 150 mil km² de vegetação nativa. Se o aquecimento e o desmatamento persistirem, o Cerrado pode deixar de ser a savana tropical mais biodiversa do planeta, com impactos hídricos e ecológicos que ameaçam a segurança alimentar da região.
A Caatinga passa por um processo gradual de expansão da aridez. Em outras palavras, a Caatinga está ficando mais seca. No norte da Bahia, perto da divisa com Pernambuco, o aquecimento global fez surgir a primeira zona árida no Brasil, um processo que se deu nos últimos 30 anos. Se esta tendência continuar, o avanço da aridez pode provocar um massivo deslocamento populacional, forçando milhões de nordestinos a deixarem suas casas, gerando vulnerabilidade, conflitos por recursos e perdas culturais.
O Pantanal entrou em uma zona de risco climático. Barragens, dragagens, retificação de canais e o desmatamento reduzem a infiltração de água e alteram a dinâmica natural das cheias. O bioma registra aumento da temperatura máxima de 0,76°C por década e, desde 2019, as chuvas ficaram 32% abaixo da média histórica. Além disso, a superfície de áreas permanentemente alagadas caiu 68% em 2023 em relação à média de 1985 a 2023. Se essa tendência persistir, o Pantanal pode cruzar um ponto de não retorno hidrológico, comprometendo a reprodução da vida aquática, a regeneração da vegetação e atividades como pesca, turismo e a subsistência de comunidades locais.
