O Relatório de Riscos Globais 2026, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, aponta os conflitos geoeconômicos como a principal ameaça à estabilidade no mundo nos próximos dois anos. O uso de tarifas, sanções, restrições a investimentos e coerção financeira como armas para garantir o poder econômico e político das grandes potências, passando por cima de acordos e regulações multilaterais, é tido pelos 1.300 analistas consultados como gatilho para provocar uma crise global ainda em 2026.
Nestes tempos de riscos interligados, os confrontos geoeconômicos potencializam a gravidade dos demais no alto do ranking —como os eventos climáticos extremos (a maior ameaça no longo prazo), a desinformação, a deterioração dos direitos humanos e os conflitos armados.
Se, na Venezuela, o livro das regras globais que regem o direito internacional e os princípios do multilateralismo foi rasgado pelo governo Trump, é importante entender que esse livro está sendo reescrito por muitas mãos.
O mundo entrou em uma era multipolar, na qual diferentes países disputam áreas de influência e poder. Grandes e médias potências dividem espaço com empresas de tecnologia, cidades globais e organizações da sociedade civil. Interesses geopolíticos definem questões domésticas. A ordem internacional construída após a Segunda Guerra já não organiza o presente, mas também abre espaço para reinventar o multilateralismo.
E o Brasil? Mais do que um papel, temos o dever de ajudar a costurar um tecido que sustente a cooperação internacional. Que responda ao desafio de fazer o multilateralismo sobreviver à multipolaridade e garanta a representatividade de potências médias emergentes.
Países como o Brasil concentram ativos estratégicos —florestas, biodiversidade, capacidade energética e alimentar e capital humano. Mantivemos uma democracia, marcada por tensões reais, e temos a liderança política e econômica da América do Sul neste momento tão volátil.
Isso confere legitimidade e responsabilidade para participar da escrita das novas regras, seja no combate às economias ilícitas, na regulação da inteligência artificial ou na construção de modelos de desenvolvimento compatíveis com os limites do planeta.
Nos últimos anos, o Brasil tem liderado destacadas ações multilaterais que conseguem unir diferentes polos. Exemplos como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, em inglês), a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e a Iniciativa de Bioeconomia (GIB) mostram que é possível ter acordos e união em cima de bens públicos mesmo no mundo multipolar.
Em meio à ofensiva tarifária dos EUA (que o Brasil também soube manejar), o país conseguiu fechar o acordo Mercosul-União Europeia, depois de 25 anos de delongas. Apesar das resistências, o tratado de livre comércio entre os dois blocos —que representam um PIB de R$ 120 trilhões— é notável não apenas por sua dimensão, mas por suas implicações na nova ordem multipolar.
Em 1919, o poeta irlandês W. B. Yeats escreveu, em “A Segunda Vinda” —um contundente retrato da desesperança do pós-Guerra—, que “aos melhores falta toda a convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade passional”. A citação assusta por ser tão verdadeira para este momento.
Não podemos nos dar ao luxo de perder a convicção. Resta a nós reescrevermos esse livro.
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