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24 de janeiro de 2026 09:42

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Confusão à vista: petróleo venezuelano apreendido pelos EUA  pode pertencer à China

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A crise venezuelana há muito deixou de ser um assunto interno. O bloqueio recente de petroleiros que saem da Venezuela não é apenas mais um capítulo das sanções. Isso expõe uma realidade incômoda: o petróleo que sai do país hoje, em grande medida, já tem dono econômico.

Desde meados dos anos 2000, a Venezuela passou a financiar sua sobrevivência com um modelo conhecido como loans-for-oil. A China abriu linhas robustas de crédito para infraestrutura, energia e projetos estratégicos. Em troca, recebeu petróleo.

Entre 2007 e 2017, esses empréstimos somaram cerca de US$ 50 bilhões. Mesmo após renegociações, estima-se que ainda restam US$ 10 a 20 bilhões a serem quitados. Em alguns períodos, mais de 300 mil barris por dia eram enviados exclusivamente para amortizar essa dívida. Não se trata de exportação para gerar caixa novo: é pagamento.

Esse arranjo criou uma dependência severa. Grande parte da produção da PDVSA sai do país sem passar pelo caixa do governo. O petróleo já nasce comprometido com credores, sobretudo chineses.

Com o endurecimento das sanções dos Estados Unidos, a logística virou um jogo de sobrevivência. Carregamentos passaram a ser transferidos entre navios em alto-mar, rebatizados e, em alguns casos, rotulados como petróleo de outras origens para driblar restrições. O rótulo muda; a essência, não. O barril continua sendo a moeda de pagamento da dívida com Pequim.

É por isso que os bloqueios recentes não atingem apenas o governo de Nicolás Maduro. Ao interceptar petroleiros, Washington encosta diretamente nos interesses chineses. Não por discurso ideológico, mas por contrato.

A China, aliás, não saiu da Venezuela, dobrou a aposta. Em 2025, a estatal CNPC firmou acordos de longo prazo para desenvolver campos petrolíferos no país, reforçando pesquisas e exploração. Para Pequim, a Venezuela é um ativo energético estratégico, localizado justamente no entorno geopolítico mais sensível para os EUA.

Esse movimento ajuda a entender por que a pressão americana ganhou novo fôlego. Ao firmar contratos de exploração e pesquisa em 2025, a China não apenas garantiu o recebimento de dívidas passadas, mas avançou sobre o acesso direto às maiores reservas de petróleo do planeta. Para Washington, isso soa como uma invasão estratégica do capital chinês em uma área historicamente sensível à influência americana, e ajuda a explicar por que a derrubada de Nicolás Maduro passou a ter, também, um claro componente energético e geopolítico.

Nesse contexto, o risco político para Donald Trump é evidente. Se a estratégia de pressão não resultar na saída de Maduro, o custo é alto. Mobilizar força, endurecer bloqueios e não entregar resultado fragiliza a imagem internacional e também a doméstica. Mais do que isso, abre espaço para um confronto indireto com a China, algo que Washington sempre tentou evitar no Caribe.

Dessa forma o ponto central é : o petróleo venezuelano apreendido no mar não é apenas um ativo de um regime isolado. Em muitos casos, ele representa o pagamento de uma dívida chinesa, firmada em contratos que mantiveram a Venezuela de pé quando ninguém mais estava disposto a emprestar.

Ao confiscar esses barris, os Estados Unidos não pressionam só Caracas. Encostam em Pequim. E quando petróleo, dívida e geopolítica se misturam, a história mostra que os efeitos raramente ficam restritos a um único país.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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