Essa frase foi dita por um professor dentro de uma sala de aula e acabou transformando a identidade de Belchior e toda uma geração.
Não se trata de um plágio, essa música foi quase toda escrita por Belchior, inclusive as alfinetadas que ele dá no Caetano Veloso.
Mas essa frase, que é o tema central da música, o Belchior pegou emprestado e eu vou te contar como isso aconteceu.
Em 1974, o filósofo e professor Augusto Pontes foi dar uma aula magna na Universidade de Brasília.
Nessa época, todo o pessoal do Ceará era muito fã de Augusto Pontes. Ele era tido como um guru, um mestre, por Belchior, Fagner, Fausto Nilo, Amelinha…
Quando ficaram sabendo que ele ia dar essa aula na Universidade de Brasília, foram pra lá assistir.
O Brasil estava sob o comando dos militares e tinha acabado de passar por um dos períodos mais difíceis da ditadura. O Geisel tinha acabado de assumir prometendo dar uma aliviada nas coisas, só que nem todo mundo acreditava que as coisas iam melhorar.
O professor Augusto Pontes criticava o regime militar, mas também alfinetava muito a esquerda.
Uma das frases conhecidas dele era: “Como dizia Mao-Tsé: Agite, agite, mas eu vou de jipe e vocês vão a pé.” Essas e outras frases dele incomodavam muito a oposição.
Mas nesse dia, da aula na UNB, ele começou falando uma frase que mexia com os militares.
Se apresentou da seguinte maneira pros alunos:
“Eu sou apenas um rapaz
latino-americano sem parentes militares.”
Como Belchior se apropriou e complementou essa frase
Nesse momento, o Fagner gargalhou tão alto que todo mundo olhou pra ele. Perto do Fagner estava Belchior, o mais calado dos alunos.
Ele ouviu aquela frase e não teve nenhuma reação, mas algum tempo depois captou o espírito do que Augusto Pontes tinha falado e construiu um dos maiores sucessos da carreira dele.
Eu sou apenas um rapaz
Latino-americano, sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Depois que a música fez sucesso, o Augusto tirou um sarro do Belchior dizendo que ele não teve coragem de deixar a palavra “militares” na letra.
A verdade é que essa música passou pela censura e com certeza foi adaptada pra poder ser lançada. Mesmo assim, Belchior conseguiu esconder uma crítica à própria censura na letra.
Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Agora, as críticas a Caetano Veloso não ficaram tão escondidas assim.
Mas trago de cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino
Tudo é maravilhoso
Apesar de Caetano não ter levado pro coração, Belchior usou o termo “antigo” pra dizer que esse otimismo do Caetano já era algo superado.
Tanto que mais pra frente, o Belchior deixa isso bem claro, mostrando que não concordava com ele.
Mas sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso…
Portanto, pra quem tinha uma imagem de Belchior como sendo “o” rapaz latino-americano, trate de transferi-la para Augusto Pontes.
Ouca: Apenas Um Rapaz Latino-Americano
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