Sim, estou falando da experiência bastante particular de pertencer a um limbo geracional, o que pode ser muito limitado para perceber alguns fenômenos, mas digamos que tem lá suas vantagens: como sugeriu Drummond, há aspectos da ilha que somente vendo-a de fora é possível enxergar. Como a distância ideal entre ilha e cidade na poesia drummondiana, o limbo pode ser um bom lugar para se ver ao redor.
É essa imagem que tem me perseguido à medida que me deparo com fenômenos contemporâneos como a aceleração tecnológica: com familiaridade suficiente para calar o ressentimento com o novo mundo e, ao mesmo tempo, uma dose de estranhamento que me permite olhar para meus próprios hábitos com certa distância.
Ambivalência de alguém que parece pertencer a dois mundos e, por isso mesmo, não pertence a nenhum, de modo que é necessário “lutar com e contra” aquilo que nos move, para citar o escritor Édouard Louis ao descrever a sua relação com a literatura.
Numa era de antagonismos que divide, de um lado, os utopistas da tecnologia e, de outro, os fatalistas anti-telas, me parece que esse delicado gesto de estranhar o mundo sem imediatamente recusá-lo pode guardar algum segredo.
Digo isso após, nos últimos dias, me deparar com um conteúdo de futebol que costumo consumir no YouTube: de repente, percebi algo de diferente que, simplesmente, me impediu de continuar. Vou aos comentários e descubro que não era só eu: “Por favor, não coloque corte acelerado, o YouTube já tem essa função para quem deseja”, disse um usuário.
Descobrir que essa pessoa existe – que muitas delas (ainda!) existem – foi como encontrar água no deserto. Um detalhe que talvez explique essa raridade: o vídeo estava levemente acelerado, o suficiente para o editor ganhar alguns minutos e, também, para que o público não se incomodasse – dia após dia, vamos “nos acostumando“, e assim segue a vida.