Começo o ano de 2026 rogando que Cristo, na sua infinita sabedoria e bondade, nos conceda a graça da isonomia de tratamento a todos os cidadãos brasileiros —sem distinção de raça e de credo.
Fundamento a súplica ao Redentor na flagrante discriminação das religiões de matriz africana no “maior Réveillon a céu aberto do mundo” —título recentemente concedido pelo Guinness World Records à festa da virada na cidade maravilhosa—, onde uma praia inteirinha (o Leme) foi reservada para que fiéis de cultos neopentecostais pudessem curtir música gospel.
Não é segredo que o Réveillon de Copacabana é o que é graças ao povo de terreiro. Passar o ano à beira-mar é uma tradição iniciada em meados do século passado, quando praticantes do candomblé e da umbanda, trajando vestes brancas, passaram a se reunir na praia de Copacabana para homenagear a Rainha do Mar, Iemanjá, com oferendas e danças.
Então por que é mesmo que sequer uma nesga de praia é reservada à prática dos rituais e oferendas típicos das religiões de matriz africana no Réveillon do Rio? Se o “Réveillon de Copacabana é de todos”, a equidade de tratamento deveria ser a regra.
Além disso, é curioso que pessoas que costumam torcer o nariz e até mesmo demonizar religiões de matriz africana curtam tanto uma passagem de ano no melhor estilo da macumba: na beira da praia.
O apagamento das religiões afro macula a Constituição Federal, o Estatuto da Igualdade Racial e tratados internacionais de direitos humanos, além de ferir a neutralidade religiosa de um Estado que se diz laico (sem religião oficial).
Nesse sentido, alegra saber que a atuação dos movimentos sociais negros surtiu efeito e a Prefeitura do Rio anunciou, dia 2, a construção de uma estátua em homenagem a Tata Tancredo (líder umbandista que criou a festa da virada em Copacabana).
Rezo pela procedência da ação impetrada para que seja designada área específica para realização de ritos afro-religiosos na praia de Copacabana ou do Flamengo no Réveillon do Rio. Cristo Redentor, olhai por nós.
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