O dólar à vista exibiu queda firme frente ao real na sessão desta sexta-feira (20). A moeda americana já caía pela manhã, com possíveis ajustes de posição, o que alterou a precificação do câmbio. A dinâmica teve uma primeira onda de aumento de magnitude após a notícia de que a Suprema Corte americana derrubou as tarifas comerciais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Já ao longo da tarde, após Trump dizer que vai aplicar tarifas globais de 10% para substituir as medidas derrubadas pela Suprema Corte, houve uma segunda onda de queda do dólar, beneficiando em especial moedas de mercados emergentes e ligadas a preços de commodities. Neste ambiente, o real foi a segunda divisa que mais apreciou frente ao dólar no dia, na relação das 33 divisas mais líquidas acompanhadas pelo Valor, atrás apenas do peso argentino.
Encerrado o pregão desta sexta, o dólar à vista recuou 0,98%, cotado a R$ 5,1758, o menor patamar desde 28 de maio de 2024, quando encerrou a R$ 5,15. Hoje, a moeda americana tocou a mínima de R$ 5,1738 e encostou na máxima de R$ 5,2229. Na semana, o dólar recuou 1,02%. Já o euro comercial registrou desvalorização de 0,86% na sessão, cotado a R$ 6,0970. Na semana, recuou 1,73%. Perto das 17h10, no exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, caía 0,12%, aos 97,803 pontos.
Desde o começo do pregão de hoje o dólar à vista recuou frente ao real. Pela manhã, operadores mencionaram um ajuste técnico, ainda resultado da dinâmica cautelosa do pré-Carnaval. A apreciação do real era similar à de outras moedas de mercados emergentes, em um possível alívio do risco global, apesar das bolsas americanas estarem em queda pela manhã. Desta vez, operadores não mencionaram sinais de fluxo ao país, como ocorreu no pregão de ontem.
No início da tarde, a notícia de que a Suprema Corte americana havia decidido contra as medidas tarifárias de Trump abriu margem para uma queda ainda maior do dólar, com o real se destacando mais ainda. “Da mesma forma que o mercado brasileiro [de câmbio] é ideal para se fazer proteção e comprar dólar quando há estresse global, por conta da sua profundidade e pela facilidade de operar derivativos, é também ideal para o movimento oposto, de se desfazer da moeda americana em ambiente de menor risco”, diz um broker de câmbio, na condição de anonimato. Também na parte da tarde, falas de Trump sobre uma tarifa global de 10% ajudaram ainda mais a enfraquecer o dólar.
Apesar da queda de hoje, estrategistas do Wells Fargo não veem a decisão da Suprema Corte fazendo efeito de longo prazo no dólar. A casa também afirma que há espaço para uma correção nessa desvalorização da moeda americana. “Os diferenciais de juros entre EUA e países do G10 já incorporam cortes do Fed até o nível neutro e poucos cortes — ou até mesmo altas — em algumas das principais economias. Além disso, o posicionamento em dólar passou a indicar uma posição vendida relevante”, dizem. “Isso limita o potencial de queda do dólar no curto prazo e inclina os riscos para uma modesta recuperação da moeda no curto prazo.”
Sobre mercados emergentes, em específico, os estrategistas afirmam que algumas moedas estão passando por componentes de uma mudança estrutural que torna a fraqueza do dólar muito mais persistente do que em algumas moedas do G10. “Em particular, para moedas de emergentes ligadas a commodities/metais, acreditamos que a magnitude dos fluxos reais continuará a impulsionar o fortalecimento cambial, quase independentemente dos diferenciais de juros e até mesmo da intervenção dos bancos centrais”, apontam. “São economias que devem se beneficiar de fluxos de investimento direto estrangeiro (FDI), além de exportações líquidas que podem se equiparar a episódios anteriores de entradas sustentadas nos mercados locais.”
Esse tipo de fluxo, ainda segundo o Wells, tende a ser muito mais resiliente do que operações de “carry trade”, o que exige uma estratégia de negociação diferente. Moedas como o peso chileno, o rand sul-africano e o real devem permanecer resilientes, na leitura do banco, mas o caminho é adotar uma postura mais tática nesses casos, dado os níveis atuais e o consenso amplamente disseminado de posições vendidas em dólar contra essas moedas. “No caso do real, o carry pela volatilidade muito elevado fornece uma âncora bastante forte, reforçada por entradas historicamente altas em ações locais nas últimas semanas”, diz, acrescentando, porém, que é preciso ter cautela e por isso, a posição preferida de expressar esse tema é estar comprado em real contra peso colombiano.
O pregão de hoje também foi marcado pela rolagem parcial de swap cambial, com o BC vendendo apenas 35,1 mil contratos, dos 50 mil ofertados, além da rolagem também parcial da linha, com a autoridade vendendo US$ 1 bilhão dos US$ 2 bilhões ofertados.
