Outra interface com a cultura da aceleração é o elemento de marco no tempo. Janeiro branco não pode ser apenas janeiro; precisa ser o ano inteiro. O mundo hiperconectado faz com que a gente atravesse estas questões quase como mais uma trend. Estas campanhas são importantes para trazer a questão à tona, mas não é exclusivamente em janeiro que devemos cuidar da saúde mental.
O “gancho” é aproveitado por pessoas, influenciadores e empresas que querem “estar bem na fita” e ganhar um “selo”, mas que raramente se comprometem de fato com a saúde de seus colaboradores ao longo do ano. Aqui, eu lembrei que chamei isso de wellness washing.
A lógica do desempenho e da performance distorce estas iniciativas e transforma em performance de cuidado o que teria potencial real de transformar vidas. Por isso que eu afirmo que janeiro branco não pode ser isso; e o cuidado deve durar o ano todo.
Este ano, temos algumas agendas políticas importantes que buscam dar conta da questão de forma coletiva: o debate sobre o fim da escala 6 x 1 de trabalho, a realização da Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil) pelo Ministério da Saúde e a implementação da Norma Regulamentadora 1, do Ministério do Trabalho, que estabelece as diretrizes para a gestão da segurança e saúde no trabalho (SST), com foco na prevenção de acidentes e doenças. A NR1 foi atualizada para incluir a obrigação das empresas de gerenciar riscos psicossociais (como estresse, assédio, e sobrecarga) e deve potencializar um movimento de cuidado importante.
Do ponto de vista do discurso, ninguém vai discordar que é preciso cuidar das pessoas, desacelerar e tratar estas síndromes e transtornos que nos impressionam com estes números. Mas é preciso que a prática acompanhe o discurso. Como legado do janeiro branco, que possamos afirmar: saúde mental é coletiva e cuidado dura o ano inteiro.
