Rico observador de nossos costumes, autor de textos breves sobre nossas vidas pública e privada, Verissimo escreveu seis romances não tão badalados. Neles estão a marca do grande artista, muitas vezes não levado a sério por fazer graça, divertir o leitor e adotar a estrutura dos chamados subgêneros —o policial, as tramas de espionagem.
Seus romances são artefatos de humor explosivo. Desde as primeiras linhas brincam com a ideia da pós-modernidade na literatura. “Me chamem de Ismael e eu não atenderei” é a abertura de “O Jardim do Diabo” (1988), paródia de “Moby Dick”, o clássico de Melville: “Call me Ishmael”.
Quem narra a história é um escritor de sucesso que ninguém conhece. Com pseudônimos, publica um livro por mês, brochuras mal impressas em papel barato que se esgotam nas bancas de jornal. Seu herói se chama Conrad, mas favor não confundir com Joseph, o escritor polonês de língua inglesa, pois ele não atenderá.
“O Clube dos Anjos” (1998) reformula os relatos de suspense e mistério. “Borges e os Orangotangos Eternos” (2000) põe lado a lado Jorge Luis Borges (a sacada inicial é “Tentarei ser os seus olhos, Jorge”) e Edgar Allan Poe. Exemplo de ficção paranoica, com o personagem principal movido a chá de ayahuasca, “O Opositor” (2004) começa num boteco de Manaus: “A cachaça fala com a língua dos homens”.
Inspirado em Shakespeare, “A Décima Segunda Noite” (2006) esbanja estilo. O narrador é um papagaio parisiense capaz de citar John Lennon e Kierkegaard na mesma oração. De todas as aberturas, a minha preferida é a de “Os Espiões” (2009): “Formei-me em Letras e na bebida tento esquecer”.
Com o AVC sofrido em 2021, Verissimo não pôde mais escrever. Comunicava-se com as mãos e expressões curtas em inglês, contou o repórter Fabio Victor na Ilustríssima. Ao acompanhar na TV uma entrevista do compositor Paulo César Pinheiro, ouviu a frase “O álcool só é nocivo para quem é mau-caráter” e deu uma saudável gargalhada. Deve ter pensado que era o início perfeito para um romance.
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