O trauma do caso Banco Master e Will Bank tem impactado o mercado secundário de títulos de renda fixa de outras instituições. Os investidores têm vendido com grandes descontos CDBs, LCIs e LCAs de duas instituições envolvidas em algum grau na história do conglomerado liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central.
As LCIs e LCAs do Banco de Brasília (BRB) têm sido oferecidas nas plataformas digitais a taxas de 108% do CDI. Vale lembrar que, como são papéis isentos de imposto de renda sobre os rendimentos, esses níveis de retorno equivalem a 139% do CDI em produtos com IR, como os CDBs.
Já os CDBs do antigo banco Voiter, que mudou de nome para Pleno, aparecem com taxas de até 170% do CDI.
O Banco Pleno foi adquirido em julho de 2025 por Augusto Ferreira Lima, ex-sócio e ex-CEO do Banco Master, com aval do Banco Central — mesmo enquanto as autoridades já investigavam irregularidades relacionadas ao Master.
Lima chegou a ser preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que apura supostas fraudes envolvendo o Master, mas o Banco Pleno não foi alvo direto dessa investigação e segue operando sob nova direção.
Já o O BRB tem enfrentado uma série de questionamento das agências de rating. A Fitch rebaixou as notas de crédito do banco ema 26 de novembro e colocou em observação negativa. A agência citou enfraquecimento da governança e doscontroles de risco, além de suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master.
A Moody’s e a S&P Global retiraram todos os ratings (global e nacional) do BRB, que estavam sob observação negativa devido a questões de governança e gestão de risco. A S&P informou que a retirada foi feita a pedido do banco.
A mecânica das taxas
Vale lembrar que as taxas no mercado secundário são um termômetro do risco percebido pelos investidores. Isso porque os retornos oferecidos, na verdade, representam descontos sobre a remuneração original do papel.
O mercado secundário é o ambiente onde os detentores de títulos já emitidos vendem os papéis antes dos vencimentos. Quando querem se desfazer rapidamente dos CDBs e outros investimentos precisam oferecer descontos que se traduzem em taxas mais elevadas do que a originalmente contratada.
E como isso funciona? Os papéis são comercializados por meio das corretoras. É um processo semelhante ao do mercado de carros usados, onde o dono do veículo pode tanto deixar em consignação na vitrine da loja, quanto vender para a própria concessionária, que, depois, negocia com lucro.
Para passar o título para frente oferecendo uma taxa mais alta do que aquela pela qual comprou o papel, o investidor precisa vender por um preço menor do que o atual.
Por exemplo. Imagine um título a 110% do CDI com mais um ano de prazo e CDI de 15% ao ano. Vamos considerar que o valor atual do título, calculado a partir da aplicação das taxas contratadas, ou seja, o valor justo, seria de R$ 1.000. Para que esse mesmo título seja vendido no mercado secundário pagando 150% do CDI, o vendedor oferece um desconto sobre esse preço. Nesse caso, teria de vender o papel a R$ 951.
Liquidação e atraso do FGC
O trauma dos investidores não vem só da liquidação do conglomerado Master. Houve também a demora de ressarcimento pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) que reduziu significativamente o que, de fato, os investidores obtiveram de retorno com as aplicações.
Questionamentos do Tribunal de Contas da união (TCU) feitos ao Banco Central sobre o processo de liquidação do Master atrasou o início dos pagamentos por mais de dois meses. Com isso, o dinheiro dos investidores de CDBs do banco ficou parado sem rendimento, o que corroeu o retorno prometido originalmente.
Quem comprou um CDB do Master a 120% do CDI em janeiro do ano passado, por exemplo, vai receber, na verdade, algo perto de 102% do CDI. Isso porque o recurso ficou sem rendimento desde 18 de novembro, data da liquidação do banco. Ou seja, o risco não valeu a pena.
Isso porque o investidor poderia ter obtido retorno semelhante por meio de títulos de bancos de grande porte, com perfil muito mais sólido e sem ter de passar pelo estresse da liquidação e da espera pelo FGC.
