24/01/2026

24 de janeiro de 2026 00:25

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Entre os cactos e o diabo em Jujuy – 18/01/2026 – Giovana Madalosso

Embarquei para a província de Jujuy, na Argentina, sem saber o que esperar. Organizamos a viagem às pressas, com um dinheiro que surgiu de última hora e nos resgatou de uma virada de ano chocha, no marasmo do sofá.

As indicações que recebemos eram ótimas, mas pediam alguns cuidados. Um amigo que esteve na região contou que estava dirigindo a 5.000 metros de altitude quando desmaiou e capotou por conta do ar rarefeito.

Começamos pela cidade de Salta, onde o oxigênio ainda era abundante e a empanada, original e deliciosamente salteña. Ali perambulamos por ruas pitorescas, acabando a noite num salão de sinuca frequentado só por homens, as nuvens de cigarro densas sobre as mesas, velhas milongas no som, um lugar suspenso no tempo.

No dia seguinte, pegamos a estrada em direção à Purmamarca. Eu, meu companheiro e nossos filhos. Viajar é errar pelo mundo: como erra (e às vezes sem querer acerta) quem se abre à aventura. Perdemos o melhor de Purmamarca, o próprio trajeto até lá, pela sinuosa rota 9, caindo numa autoestrada enfadonha onde só nos sobrou a graça das papas fritas.

Ainda bem que não faltavam paisagens impressionantes no destino. A minúscula cidade fica nos pés da Montanha das Setes Cores, uma formação geológica que de fato vai do verde ao roxo, uma espécie de morro vestindo uma camiseta listrada, uma tela pintada por uma criança que não tem medo de abusar dos lápis de cor.

Abasteci meu estômago com carne de lhama e a minha língua com folhas de coca, que ajudam a suavizar os efeitos da altitude, porque dali iniciamos o trajeto rumo à s Salinas Grandes, subindo a quase 5.000 metros.

À medida que avançávamos, os cactos, que até então habitavam as montanhas com a densidade demográfica de São Paulo, passaram a escassear. Pelo jeito, nem eles conseguiam sobreviver em solo tão alto. Por ali, só as plantas rasteiras e os condores, que voavam solitários, conduzindo o meu olhar aos precipícios e aumentando aquele desmedido medo materno: onde fui me enfiar com meus filhos?

Em um lugar fabuloso, responderam as Salinas, que logo rasgaram de branco o horizonte. Tiramos os óculos escuros da mochila: não era possível palpebrar a paisagem alva de outra maneira. Fiquei surpresa ao perceber que, onde nem os cactos e as lhamas conseguem sobreviver, viceja o capitalismo, essa forma de vida resiliente, que se materializava em um logo de Coca-Cola e em chaveiros de capivara, ofertados em uma pequena tenda.

Um guia nos conduziu por piscinas abertas no impressionante deserto de sal, onde lavamos as mãos, esperando deixar na água qualquer mau agouro para entrarmos mais leves em 2026.

Não éramos só nós que buscávamos um banho de descarrego. Na volta, passando por Maimara, encontramos uma festa de rua típica do 1º de janeiro, onde um diabo de três metros, cercado por uma multidão dançante, sinalizava que, no primeiro dia do ano, todo o prazer era aceitável, toda indulgência era possível. Sacudindo discretamente os quadris, também deixei ali alguns demônios.

Depois seguimos para Tilcara. Uma cidade encantadora, onde vibra a cultura andina. Espetei, na ponta afiada de um cacto, um papelzinho com meus desejos de ano novo. Um outro desejo? Um dia voltar para Jujuy.


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