Lislaine dos Anjos/Rdnews
Envelhecer é um processo individual, complexo e cheio de camadas, que carrega consigo, além da experiência de uma vida inteira, o medo de não se saber como exatamente as coisas ficam quando esse momento chega. As incertezas andam lado a lado das expectativas, juntas em um emaranhado de sentimentos que, agora, se intensificam. No entanto, apesar da tentativa de dar boas-vindas a uma fase nova, muitos idosos vivenciam algo que já passaram antes: começam a ser vistos novamente como crianças. A partir daí nascem os comentários alegando teimosia, birra ou comportamentos que não se tinham antes, na juventude. Mas, mais do que isso, passam a lidar diariamente com o uso do linguajar infantil referindo-se a eles ou a atividades que pratiquem. Para o psicólogo Raul Tibaldi, tal atitude pode afetar diretamente a autoestima de pessoas que apenas iniciaram uma nova etapa na vida.
“A gente entende que o uso da linguagem passa mensagens. Então, quando usamos, por exemplo, o diminutivo para se referir a uma pessoa idosa, principalmente quando ela tem algum tipo de comprometimento cognitivo, uma demência, seja por Alzheimer ou por outra doença, isso, direta ou indiretamente, acaba atravessando o senso de dignidade daquela pessoa”, pontua Raul.
Reprodução/Freepik

O profissional aponta que, culturalmente, reserva-se o diminutivo a crianças por uma questão de adequação ao cognitivo que ainda se desenvolve. No caso dos idosos, é necessário compreender que não são fases equivalentes, muito pelo contrário, são momentos completamente distintos na vida. Raul explica que, muitas vezes, liga-se a limitação física ou o início de uma deterioração cognitiva dos idosos a uma volta à infantilidade e que este é um movimento completamente equivocado. “É preciso entender aquela pessoa idosa como um adulto. Por mais que tenha dificuldades, que tenha perdido habilidades, continua sendo uma pessoa adulta. Às vezes com incapacidades, com deficiências, mas que não por isso tenha voltado a esse status infantil”, afirma.
“Precisamos superar essa ideia de que, por estar velha, a pessoa não tem mais o direito de tomar as próprias decisões”
Raul aborda ainda um ponto que está diretamente ligado à forma com a qual se tratam idosos na sociedade: os estereótipos ligados ao envelhecer como algo “padronizado” e a maneira como vemos esse processo. Pensar que todos os idosos são iguais, bons, teimosos ou coisas do tipo é atribuir a todo um grupo de indivíduos, muito diferentes e complexos, uma única caracterização. Há de se considerar a singularidade, que não se perde ou volta à infância, mas continua ali, mesmo que seja enfrentando uma possível perda intelectual.
O psicólogo reforça que o tratamento de pessoas idosas diferencia-se do destinado a crianças por haver fatores nesta fase da vida que são únicos, como, por exemplo, uma possível perda de autonomia. Para um adulto, abrir mão da independência, muitas vezes conquistada a duras lutas, aparenta ser uma das maiores catástrofes que o envelhecimento pode trazer. Raul explica que existem mecanismos para preservar o direito de decisão de pessoas idosas, maneiras de manter sua autonomia sem deixar de prover a elas os cuidados de que necessitam. Uma escolha de roupa, um horário de banho, o livro que vai ler ou o programa que vai assistir. Tudo isso transpassa a garantia de dignidade.
Lislaine dos Anjos/Rdnews

“Precisamos superar essa ideia de que, por estar velha, a pessoa não tem mais o direito de tomar as próprias decisões”, diz o psicólogo.
Raul finaliza refletindo ainda que entrar na vida idosa não precisa, necessariamente, vir carregado com uma sombra de receios, mas que, caso aconteça, é necessário olhar para onde vem esse temor, pois “entender esse medo passa por essa compreensão do que a velhice e o envelhecimento representam, não só individualmente, mas também social e culturalmente”, porque envelhecer com cuidado e dignidade não deveria ser um privilégio, mas um direito básico.