Observações realizadas pelo JWST (Telescópio Espacial James Webb) identificaram centenas de pequenos objetos avermelhados em imagens profundas do Universo primitivo. Conhecidos como LDRs (Little Red Dots), esses pontos aparecem em regiões formadas poucas centenas de milhões de anos após o Big Bang e vinham sendo classificados, inicialmente, como possíveis galáxias antigas ou regiões de intensa formação estelar.
Um estudo liderado por Rusakov et al., publicado na revista Nature neste mês de janeiro, apresentou uma nova interpretação para esses objetos. De acordo com os autores, os LRDs correspondem a buracos negros em fase inicial de crescimento, envolvidos por envelopes densos de gás ionizado, o que afeta a forma como sua radiação é observada.
Segundo o astrônomo Dr. Marcelo de Cicco, coordenador do projeto Exoss, ligado ao Observatório Nacional, as primeiras análises apontavam para galáxias muito antigas:
“Quando surgiram as primeiras imagens, acreditava-se que aqueles pontos vermelhos difusos fossem galáxias muito antigas, da época da reionização do Universo, algumas centenas de milhões de anos após o seu início.”
A hipótese de que os objetos seriam buracos negros supermassivos gerou questionamentos porque as estimativas iniciais de massa indicavam valores muito elevados para a idade do Universo naquele período.
“A análise das bandas de emissão sugeria massas de milhões ou até bilhões de vezes a massa do Sol, o que é impensável para uma fase tão inicial do Universo, extrapolando o chamado limite de Eddington, que equilibra a pressão da radiação e a atração gravitacional,” explicou De Cicco.
O limite de Eddington define a taxa máxima de acreção de matéria por um buraco negro, considerando o equilíbrio entre a força gravitacional e a pressão da radiação emitida. Valores acima desse limite por longos períodos não são previstos pelos modelos astrofísicos tradicionais.
O estudo indica que a superestimação das massas ocorreu devido ao espalhamento da radiação no gás que envolve os objetos. Esse efeito altera o perfil das linhas espectrais utilizadas nos cálculos de massa.
GALERIA – Veja descobertas astronômicas deste ano
Astrônomo compara o fenômeno a uma distorção óptica
“É como observar uma lâmpada envolta por uma névoa: à distância, ela parece maior do que realmente é, porque a luz se espalha no meio. O gás ao redor do buraco negro provoca esse mesmo efeito nas linhas do espectro.”
Com o uso de instrumentos de alta resolução do JWST, como o espectrógrafo NIRSpec, os pesquisadores conseguiram separar o efeito do espalhamento gasoso da emissão real do objeto. A partir dessa correção, as massas estimadas passaram a variar entre cerca de 10⁴ e alguns milhões de massas solares.
“Ao remover o efeito do envoltório gasoso, os cálculos se tornam mais realistas. São buracos negros com massas menores, compatíveis com os modelos de evolução do Universo primitivo,” afirmou o De Cicco.
O estudo indica que os chamados Little Red Dots correspondem a buracos negros jovens, envolvidos por envelopes densos de gás ionizado. Com a revisão das estimativas de massa, os dados passam a ser compatíveis com os modelos atuais de crescimento de buracos negros no Universo primitivo. As observações ampliam o conjunto de informações disponíveis para estudos sobre a formação das primeiras estruturas cósmicas.
