04/03/2026

4 de março de 2026 03:31

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jogadores chegam e são recebidos com enquadro da torcida

Temos muitos problemas com essa dinâmica. O primeiro é o enquadro.

O jogador é um trabalhador, não importa se ganha milhões por mês. Ele chega para trabalhar. Não é aceitável que alguém se apresente ao trabalho levando um pito com cara de “é para o seu bem” – que, aliás, é uma dimensão importante da dominação. É quase sempre pelo nosso bem, eles dizem.

Depois eu argumentaria que o que esperamos de um jogador não pode ser títulos porque futebol é jogo coletivo e nem Gerson nem Gabriel conseguirão, sozinhos, fazer chover. Entrega, concentração, respeito, disciplina, foco, seriedade. Tudo isso acho que pode ser colocado como “o que esperamos de você”. Mas cobrar por título é uma maluquice.

Do lado da torcida, a exaustão se explica porque o futebol atual separou o time da massa. Os atletas são como celebridades protegidas por seguranças do contato direto com aqueles que os idolatram. O ingresso é caro, nem todos podem frequentar estádio, os treinos são fechados, a torcida interessa enquanto consumidora, mas não como fã. Sai pra lá e vão contratar o sócio-torcedor porque, com sorte, ganham algum sorteio que deixa vocês irem até o clube e tirar uma foto de cinco segundos com o jogador.

Numa sociedade que divide pessoas entre vencedores e perdedores, o futebol passa a ser válvula de escape ainda maior para aqueles que, na vida real, acham que estão perdendo. Só vencer importa, nada mais existe. E as coisas não são assim: a definição de perdedor e de vencedor envolve a participação num jogo que está sendo roubado pelos privilegiados. Embora o neoliberalismo todos os dias tente nos dizer que é isso mesmo, só existem vencedores e perdedores, nosso dever segue sendo o de lutar contra esses consensos fabricados que acabam destruindo também o futebol.

Não acho um absurdo que o craque vá falar com a organizada quando chega. As organizadas têm inúmeros problemas – o machismo avassalador entre eles – mas têm também importância central no nosso futebol e na forma como as periferias se manifestam artística e politicamente. Mas o fato de só haver homens dando enquadro em jogador diz muito a respeito da misoginia que circula no interior dessas torcidas. Na maioria delas, mulher não pode segurar bandeira ou tocar instrumentos. Para abordar a primeira prateleira do problema.

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