Os juros futuros encerraram o pregão desta terça-feira (3) com avanços robustos ao longo de toda a estrutura a termo da curva em meio à aversão ao risco dos mercados e temores inflacionários por conta da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio.
Durante a tarde, houve certo alívio que tirou as taxas dos maiores níveis do dia, mas o movimento não foi nem de perto suficiente para apagar o estresse relevante visto no mercado de renda fixa, à medida que os investidores reveem as suas expectativas para o ciclo de flexibilização monetária no Brasil.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 subiu de 13,295%, do ajuste anterior, para 13,445%; a do DI de janeiro de 2028 avançou de 12,685% a 12,885%; a do DI de janeiro de 2029 disparou de 12,73% para 12,97%; e a do DI de janeiro de 2031 saltou de 13,115% a 13,36%.
Além do esperado acréscimo de prêmios de risco com a percepção de que o conflito no Oriente Médio pode se arrastar por mais tempo, o mercado de renda fixa reagiu fortemente ao temor de que a ausência do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz, fechado pelo Irã, leve a uma nova onda inflacionária global.
O canal é responsável por cerca de 20% do escoamento de toda a oferta global da commodity, e seu fechamento por um período mais longo poderia impactar de forma relevante os preços de energia ao redor do mundo ― inclusive no Brasil.
À tarde, o mercado teve algum alívio com a notícia de que o governo dos Estados Unidos explora algumas alternativas para limitar o impacto da guerra nos preços do petróleo, conforme publicou a agência Reuters. Mesmo assim, persistem os temores sobre o quadro inflacionário, que levaram os investidores no Brasil a revisarem as estimativas para o ciclo de cortes da taxa Selic.
Na curva de juros futuros, os investidores passaram a precificar um corte menor que 0,50 ponto percentual (p.p.) na próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), no próximo dia 18. Na prática, isso significa que, embora a maioria do mercado ainda coloque o corte de 0,5 ponto no preço, a chance de um movimento mais tímido ganhou força.
O mercado de opções digitais de Copom mostrou quadro similar: hoje, a probabilidade implícita de corte de 0,5 ponto da Selic despencou de 73% para 57%, após ter atingido mais de 80% na semana passada. Já a chance de corte de 0,25 ponto subiu de 24% a 35%, depois de ter tocado a mínima de 12% na última quinta-feira (26).
“Independente dos números que o modelo [de projeção do BC] vai dar, o mais importante é entender que o cenário se tornou extremamente incerto”, pondera Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank. Para ele, é até mais provável que, mantida a incerteza quanto à geopolítica global, o BC prefira um corte menor de 0,25 ponto percentual da Selic daqui a duas semanas.
“Normalmente, nesse contexto, os BCs tendem a se mover da maneira mais cautelosa possível. Isso não significa, necessariamente, que os juros vão ficar parados, mas, sim, que o ajuste será próximo do mínimo que o BC está sinalizando”, diz Salles. “Estamos de frente a uma grande incerteza. Se a estrada está com neblina, vá devagar”, recomenda o economista.
Já Igor Barenboim, economista-chefe da Reach Capital, acredita que o BC ainda terá espaço para fazer um corte de 0,5 ponto no dia 18. Até lá, é provável que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trabalhe para amenizar os impactos do conflito nos mercados e na economia americana.
“Tendo a prender a respiração e achar que a coisa vai se acomodar. O homem mais poderoso do mundo quer que o BC do seu país corte juros, e isso trabalha a nosso favor”, diz Barenboim.
