O nascimento de seis filhotes de surucucu-pico-de-jaca, considerada a maior serpente peçonhenta da Américas, virou motivo de comemoração entre pesquisadores e apaixonados por répteis às vésperas do Dia das Mães. A mãe, chamada Olinda, pertence à espécie Lachesis rhombeata, ameaçada de extinção devido à degradação da Mata Atlântica.
Os filhotes — batizados de Sebastiana, Suassuna, Pitomba, Frevioca, Grego e Timão — nasceram entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, mas tiveram a história divulgada agora pelo Instituto Butantan devido à importância inédita do feito para a conservação da espécie.
Estratégia inédita após mais de 20 anos
O nascimento é resultado de mais de duas décadas de tentativas de reprodução realizadas pelo Laboratório de Herpetologia do Butantan. A conquista foi considerada estratégica porque a surucucu-pico-de-jaca é extremamente sensível em cativeiro e possui uma janela reprodutiva curta, o que torna a reprodução um dos maiores desafios enfrentados pelos pesquisadores.
A espécie está classificada como vulnerável e ameaçada, segundo portaria publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Olinda e Sapoti, o pai dos filhotes, vieram de Pernambuco após uma parceria entre o Instituto Butantan, a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Entre 2022 e 2023, seis exemplares da espécie foram enviados para São Paulo em uma missão dupla: produzir veneno para soros antiofídicos e tentar a reprodução em cativeiro.
O casal já vivia junto anteriormente, mas demonstrava pouco interesse reprodutivo. A equipe então decidiu apostar em uma estratégia incomum: separar temporariamente os dois animais para estimular o reencontro.
O plano funcionou rapidamente. Segundo os pesquisadores, logo na primeira noite após a reaproximação ocorreu a cópula. Cerca de quatro meses depois, um ultrassom confirmou a gestação de Olinda, revelando nove embriões.
A mãe exemplar

Diferentemente da maioria dos répteis, que abandonam os ovos após a postura, Olinda apresentou um comportamento considerado raro pelos especialistas.
Após colocar nove ovos em outubro de 2025, a serpente permaneceu enrodilhada sobre eles durante todo o período de incubação, em um gesto de proteção que chamou atenção da equipe do Butantan.
Cerca de 74 dias depois, os ovos começaram a se romper em datas diferentes. Apesar do sucesso histórico, houve perdas durante o processo: dois filhotes morreram ainda dentro dos ovos por desidratação, um nasceu com malformações genéticas e outro morreu cerca de um mês após nascer.
Mesmo assim, cinco filhotes cresceram saudáveis e seguem sendo acompanhados pelos pesquisadores.
Ao nascerem, as pequenas surucucus já possuíam veneno e instinto de caça, características naturais da espécie.
Nomes inspirados em O Agente Secreto

A equipe do Butantan também chamou atenção nas redes sociais ao revelar os nomes escolhidos para os filhotes.
As fêmeas receberam os nomes Sebastiana, Pitomba e Frevioca — referências à cultura pernambucana e ao filme O Agente Secreto. Já um dos machos foi batizado de Suassuna, em homenagem ao escritor Ariano Suassuna.
Os outros dois machos receberam os nomes Grego e Timão, homenageando pesquisadores ligados à história do laboratório.
Por que a reprodução dessa serpente é tão difícil
Os especialistas explicam que a reprodução da surucucu-pico-de-jaca em cativeiro exige cuidados extremos. A espécie se estressa facilmente, e manipulações excessivas podem comprometer toda a gestação.
No caso de Olinda, os pesquisadores evitaram ultrassons frequentes justamente para reduzir interferências que poderiam prejudicar a fecundação.
Outro desafio está relacionado à idade das fêmeas. Após cerca de 10 anos, muitas apresentam degeneração dos folículos ovarianos, dificultando a reprodução — um fenômeno comparado pelos pesquisadores a uma espécie de “menopausa”.
O sucesso da gestação foi atribuído à combinação de animais jovens, adaptação ao ambiente e um manejo menos invasivo.
Corrida para salvar uma espécie ameaçada
Além do valor científico, o nascimento reforça a importância da chamada conservação ex situ, ou seja, realizada fora do habitat natural.
A estratégia funciona como uma espécie de reserva genética para garantir a sobrevivência da surucucu-pico-de-jaca caso a população da Mata Atlântica continue diminuindo.
A cada novo nascimento, o laboratório amplia as chances de preservar viva uma das serpentes mais raras, sensíveis e impressionantes do Brasil.
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