Há uma hipótese que começa a ganhar forma. O governo não precisa de crescimento exuberante para 2026. Precisa de estabilidade. Se inflação e dólar permanecerem sob controle até a eleição, o ambiente político tende a se tornar previsível. E a previsibilidade econômica, em ano eleitoral, costuma pesar mais do que promessas de expansão.
Atravessar o ciclo eleitoral com poder de compra preservado e sem sobressaltos cambiais. Não se trata de coordenação formal com o Banco Central, mas de entender uma engrenagem objetiva. A dívida pública define o prêmio de risco. O prêmio de risco influencia os juros. E os juros determinam o fluxo de capital.
Hoje o Brasil oferece um diferencial relevante de juros. Esse diferencial atrai recursos externos, fortalece o real e ajuda a conter a inflação via câmbio. Produtos importados pressionam menos os preços, insumos ficam mais baratos e o repasse cambial perde força. Com inflação menor, salários e programas sociais preservam valor real. O eleitor sente estabilidade.
O efeito se estende ao mercado financeiro. A entrada de capital alimenta a bolsa, melhora o humor dos investidores e cria sensação de confiança. O mercado financeiro é formador de opinião. Quando a bolsa sobe, o discurso dominante passa a ser de normalização e horizonte favorável. Estabilidade no bolso e otimismo no mercado formam uma combinação politicamente poderosa.
Se esse ambiente durar até as eleição de 2026, o sinal estará dado. Em contexto de estabilidade percebida, o impulso por mudança diminui.
Mas o equilíbrio é frágil. Ele depende de credibilidade fiscal. Se a dívida continuar pressionando, o prêmio de risco sobe. Se o prêmio sobe, os juros permanecem elevados. E juros altos por tempo prolongado comprimem crédito e crescimento. A estabilidade pode se transformar em estagnação, e a percepção muda rapidamente.
E há um fator que escapa ao controle doméstico: o mundo. A geopolítica acumula tensões em vários continentes, das fricções entre Donald Trump e Xi Jinping às incertezas envolvendo o Irã no Oriente Médio, passando pelo ainda delicado entendimento entre Rússia e Ucrânia. Qualquer deterioração nesses focos pode alterar o fluxo global de capitais. Pressões sobre o Federal Reserve ou movimentos bruscos na política comercial americana adicionam volatilidade.
Em momentos de incerteza, o investidor deixa de buscar diferencial e passa a buscar proteção. E, quando isso acontece, os emergentes sofrem primeiro. O real pode se desvalorizar, a inflação pode voltar e toda a engenharia de estabilidade interna perde sustentação.
Há espaço para manter inflação e câmbio comportados em 2026? Há, mas é um espaço condicionado à dívida sob controle e a um mundo que não entre em rota de colisão.
O jogo eleitoral começa na dívida pública. Mas, num mundo armado de riscos, quem define o ritmo não é o calendário político, é o capital.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post Manutenção da estabilidade econômica pode decidir eleições em 2026 apareceu primeiro em Canal Rural.
