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20 de maio de 2026 06:28

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Na dona da Sadia, um plano de R$ 500 milhões para ter a maior fábrica de colágeno do mundo

A MBRF, dona de Sadia e Perdigão, iniciou uma nova fase de investimentos na Gelprime, sua aposta em colágeno e gelatina, com planos para mais que triplicar a capacidade da fábrica em Londrina, no norte do Paraná.

A meta é que, em cinco anos, a planta alcance 30 mil toneladas anuais. Segundo Rafael Braz, diretor de novos negócios da MBRF, isso fará dela a maior unidade do mundo a concentrar produção de colágeno e gelatina num único complexo industrial.

A ampliação faz parte de um plano de investimento de R$ 500 milhões da MBRF no colágeno, proteína que ganhou novo fôlego em meio à expansão dos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro. Ao mesmo tempo em que aceleram a perda de peso, eles exigem alimentos mais proteicos, para evitar a perda de massa muscular.

O movimento, na verdade, colocou gasolina numa fogueira que já vinha queimando há anos: a onda de trocar carboidrato por proteína para controlar o peso – uma tendência de consumo que toda a indústria de alimentos corre para suprir.

Do meio bilhão separado pela companhia, R$ 312,5 milhões já foram destinados à aquisição de 50% do capital da Gelprime, anunciada no fim de 2024 e concluída em novembro do ano passado. Os R$ 187,5 milhões restantes serão direcionados ao aumento das linhas de produção.

Rafael Braz, diretor de novos negócios da MBRF (Divulgação)

À época da aquisição de metade da Gelprime, a MBRF estimou que a empresa teria cerca de 5% da produção global de gelatina e colágeno após os investimentos em aumento de capacidade. 

Essa expansão vai atender três linhas de produtos, segundo Vinícius Vanzella, CEO da Gelprime: gelatina, tanto para a indústria alimentícia quanto a farmacêutica – onde serve para a fabricação de cápsulas; o colágeno funcional, usado em produtos como hambúrgueres e linguiças para melhorar textura e suculência; e o colágeno hidrolisado, ingrediente para suplementos, cosméticos e alimentos enriquecidos, como pratos prontos com alta concentração de proteína.

Inclusive o colágeno hidrolisado da Gelprime já entrou no produto mais recente do portfólio proteico da MBRF: uma linha de marmitas da Perdigão anunciada com cerca de 40 gramas de proteína por porção – mais ou menos 70% da necessidade diária de uma pessoa de 70 quilos.

Do couro à proteína

A Gelprime nasceu em 2019 como diversificação de um grupo do setor de couro, a Viva S/A, holding com receita de R$ 3,1 bilhões formada em 2023 pela fusão entre os curtumes Viposa, fundado em 1954 em Caçador (SC), e Vancouros, criado em 1990 na cidade de Rolândia (PR).

Vinícius, CEO da Gelprime, é parte da família que controla a Vancouros, dirigida por Edson Vanzella Pereira de Souza. Na época da fusão que criou a Viva, em 2023, Edson descreveu o movimento como uma forma de transformar o couro “não só em revestimento, mas também em proteína”.

Fábrica de colágeno da Gelprime em Londrina, no Paraná
Fábrica de colágeno da Gelprime em Londrina, no Paraná (Divulgação)

Frigoríficos vendem peles bovinas, o chamado “couro verde”, a curtumes, que tradicionalmente as transformam em revestimentos para automóveis, móveis, calçados e vestuário. A margem aí é maior do que a da venda de carne in natura.

A produção de gelatina e colágeno também. Estimativas do setor apontam margens operacionais (Ebitda) próximas de 30% nos peptídeos, contra patamar de um dígito nos negócios tradicionais de proteína animal.

Em novembro, a Viva fechou outra combinação relevante: uniu seus ativos de couro aos da JBS, em uma joint venture batizada de JBS Viva, com 31 fábricas em seis países e capacidade de processar mais de 20 milhões de peças de couro por ano. 

O movimento coloca a JBS, controladora da Genu-in, como sócia 50/50 da Viva, que segue como dona dos outros 50% da Gelprime ao lado da MBRF.

A corrida do colágeno

Os investimentos da MBRF em colágeno se somam aos de outros concorrentes. A JBS, por meio da subsidiária Genu-in, inaugurou em 2022 uma fábrica em Presidente Epitácio, no interior de São Paulo, com capacidade de produzir 12 mil toneladas anuais entre peptídeos de colágeno e gelatina, resultado de um investimento de R$ 400 milhões.

A Marfrig, antes da fusão com a BRF, tentou comprar a catarinense Gelnex em 2022 e foi superada pela americana Darling Ingredients, que pagou US$ 1,2 bilhão. Hoje, a Gelnex opera sob a marca Rousselot, com 46 mil toneladas anuais em seis fábricas no Brasil, Paraguai e Estados Unidos. 

Leia também: Genu-in, aposta de R$ 400 milhões da JBS em colágeno, já opera perto do limite e prepara expansão

No ano passado, a Darling anunciou a fusão da Rousselot com a belga PB Leiner para formar a Nextida, joint venture com capacidade global de 200 mil toneladas e receita estimada em US$ 1,5 bilhão para este ano.

O mercado mundial de ingredientes de colágeno foi estimado em US$ 1,32 bilhão em 2024 pela consultoria Mordor Intelligence, com projeção de crescimento anual próximo a 6% até 2029.

Para Braz, mais do que entrar em uma nova proteína, o movimento permite à MBRF extrair valor adicional de cada boi abatido, em sintonia com a tendência global de aproveitamento máximo da cadeia.

O colágeno responde por cerca de um terço da proteína do corpo humano e está concentrado em tecidos como pele, tendões, cartilagens e ossos. A produção natural cai com a idade, o que abriu uma oportunidade para oferecer opções de suplementação.

A eficácia do consumo oral é tema de debate científico, já que o organismo quebra a proteína em aminoácidos durante a digestão e os redistribui conforme a demanda metabólica, não necessariamente para a pele ou as articulações. Mas a aposta comercial vai além desse debate. 

Para a indústria de alimentos, o colágeno hidrolisado tem uma vantagem que outras proteínas não oferecem: é neutro em sabor e aroma, solúvel e estável. Isso permite incluí-lo em produtos que, antes, não levavam injeções extras de proteína, como sucos, biscoitos, iogurtes e marmitas.

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