Festas de fim de ano abalam emocionalmente inúmeras pessoas, estão aí as pesquisas para provar que não é só uma sensação. Profissionais da saúde mental saem de férias com um olho no recesso e outro no paciente, fazendo uma espécie de plantão para eventualidades.
Alguns pacientes sequer podem prescindir de acompanhamento nessa época. Mesmo quem está bem não escapa inteiramente do estresse associado aos eventos. Que curva de rio é essa com a qual nos deparamos todo ano, coletivamente?
O Natal é uma data curiosa: festa familiar que prenuncia boa comida, presentes e confraternização, mas muitas vezes entrega choro e ranger de dentes. A família, por ser uma estrutura em permanente mutação, é recenseada a cada nova edição da festa.
É o inventário familiar natalino, uma espécie de fotografia desse organismo vivo, que nasce, cresce, declina e acaba para recomeçar em outras bandas, com outros agrupamentos, deixando na lembrança as configurações anteriores.
A depender da carga emocional do que ficou para trás, do quanto ela foi ou não elaborada, a lembrança pode se tornar um poço de melancolia, no qual chafurdamos. A chegada de um novo bebê remete a quem partiu, um novo casamento nos lembra das separações, e assim sucessivamente. O luto é especialmente doloroso no Natal, por tornar vívida a memória da pessoa ausente.
É uma data que nos permite retificar e atualizar as relações, nos localizando na linha do tempo de nossas vidas. Mas, como o fim da vida não dá direito à apelação, lidar com o tempo é lidar com a perspectiva da morte. O encontro em família pode servir também para que as diferenças entre as pessoas sejam usadas como diferenças de valor.
Se não concretizamos nossos planos, o fantasma da meritocracia pode nos assombrar diante do irmão que os realizou. Famílias são referências fundamentais do que se passou desde o ponto de largada até a linha de chegada, atualizada a cada ano. Seus integrantes funcionam como testemunhas oculares de nossos erros e acertos, e nem sempre estamos a fim de encarar esse espelho.
Para alguns, o Natal é apenas a lombada que se interpõe entre um ano inteiro de trabalho e as merecidas férias, último item de uma longa lista de “todos”. Para as crianças que têm um teto sobre a cabeça, comida e presentes pelos quais esperar, o Natal pode ser o suprassumo do ano.
A criança pobre, bombardeada pela propaganda do Papai Noel, não deixará de se perguntar o porquê de não receber o merecido presente. Mas não há condição material ou força de vontade que tape o buraco de um Natal dentro de uma família violenta ou isenta de afeto.
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Natal só funciona para quem tem uma família na qual o amor pesa mais que o ódio e as violências que nos fundam estão suficientemente sublimadas. Falo do Natal, por ter se tornado a referência maior da festa familiar, em grande parte por exploração comercial, mas o mesmo se aplica a outros festejos familiares de outras tradições.
O Natal, seja bom, ruim ou mais ou menos, tem o mérito de nos fazer refletir sobre o lugar da família em nossas vidas. E família só é boa quando cuida, suporta e se responsabiliza pelos seus integrantes. Não há festa que disfarce a violência familiar; para esses casos, a opção mais saudável é passar com amigos ou ir dormir mais cedo. Feliz Natal!
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