É um jogo de gente muito grande, como dizem nas ruas. Mesmo que todas as pessoas sejam muito grandes, como se sabe. Mas tem um feijão com arroz que podemos fazer por aqui, todos os dias, para qualificar essa conversa. Parece simples, e é. Mas, muda tudo.
Quando a imprensa contar o recorde de calor, o dia mais quente da última semana, do último mês, nos últimos 5 anos, que tal trocar a clássica foto de dezenas de pessoas na praia para uma imagem que ilustra, realmente, o impacto de um dia desproporcionalmente quente na vida das pessoas? A fila de algum hospital público, por exemplo.
A onda de calor no Rio de Janeiro levou nada menos que 300 pessoas a serem atendidas na rede de saúde no último fim de semana do ano. Isso, sim, traduz a notícia. A situação foi tão grave que a prefeitura precisou criar estratégias de emergência, como distribuição de água potável em bicicletas e bebedouros pela cidade, além de postos de pronto atendimento.
O ponto é que ilustrar uma situação extrema, neste caso o calor, com imagens de pessoas pegando uma praia ou sentadas num parque parecendo se divertir, pouco ou nada contribui para explicar a complexidade, nuances e os impactos do tempo em que estamos vivendo. Quem pode fazer isso numa terça-feira, às três e meia da tarde? O dia mais quente dos últimos seis meses é sobre como cada cidade se organizou para reduzir riscos à saúde da sua população. É como foi o dia na vida de quem mora na periferia de uma cidade ao norte do país.
É contar quantos pontos de emergência foram criados, onde eles estão dentro da cidade. Qual fatia do orçamento anual é dedicado a essas questões, quais são as políticas públicas aprovadas no último ano naquela cidade que ajudam a enfrentar os extremos climáticos de frente?
Como está a saúde de quem passa um dia inteiro no sol e não tem outra possibilidade. Por exemplo, quem deixa as nossas ruas limpas. Houve mudanças de protocolo nos últimos anos para cuidar dessas trabalhadoras? Sim, a notícia é o recorde de calor. Mas tudo que acontece ao redor disso, também é. Há diferença estrutural entre os serviços públicos no centro de uma cidade e aqueles instalados nas favelas e periferias?