Quando temos muitas opções, podemos nos sentir sobrecarregados pelas informações, tensos pela responsabilidade da decisão e podemos, no final, ver diminuída nossa satisfação com as escolhas que fazemos. Esse fenômeno é conhecido como o paradoxo da escolha. O brasileiro, agindo como se tivesse um sistema político bipartidário, decidiu livrar-se do paradoxo e embarcar na escassez e limitação das escolhas, radicalmente polarizadas, que classificam as pessoas: ou você é isso ou aquilo, ignorando os contextos, as abstrações, a tolerância com as diferenças, as mudanças, o amadurecimento e o respeito pelas escolhas individuais.
Essas condições podem colocar as pessoas em um ciclo vicioso de estratégias de polarização, aprofundando nossas amargas divisões e a retórica agressiva que tem caracterizado nossos debates sobre as eleições. A polarização, embora não seja novidade, ganhou intensidade. É um processo que simplifica a política, consolidando o campo político em apenas dois blocos opostos e cada vez mais imutáveis, divide o eleitorado em dois grupos que desconfiam um do outro. Perdeu-se o equilíbrio, as disputas eleitorais se tornaram implacáveis e a política está parecendo um jogo, onde o ganho de um lado tem que refletir a desmoralização e o esmagamento do adversário, que passa a ser o imoral, antidemocrático, o inimigo da nação.
“A retórica agressiva e divisionista tem contribuído para a sensação de medo entre muitos acostumados a discutir abertamente os seus direitos e preferências partidárias”
Ao ler um estudo sobre a polarização entre nações no livro escrito por Thomas Carothers e Andrew O’Donohue, Democracias Divididas: O Desafio Global da Polarização Política, é destacado que a ascensão de partidos populistas polarizou os sistemas democráticos, as mídias partidárias intensificaram as antigas ‘leves’ divergências, fazendo com que nossas diferenças pareçam maiores do que são efetivamente e Brasil, Estados Unidos e inúmeros países da Europa enfrentam fissuras políticas cada vez mais profundas e irremediáveis a curto prazo.
Tem sido acrescentado em alguns estudos um forte alinhamento de ideologia e religião com as divisões políticas, O Brasil é obviamente citado no estudo, por enfrentar crises sucessivas (econômica, moral, política) e atravessar um momento de debate político deteriorado, pulverizado por ataques pessoais, teorias conspiratórias e narrativas emocionais.
Eleições no Brasil sempre foram competitivas, os indivíduos são livres para expressar suas opiniões pessoais sobre temas políticos ou outros assuntos sensíveis sem medo de vigilância institucional, no entanto, os períodos eleitorais recentes foram afetados pelo medo da violência política, julgamentos e xingamentos. A retórica agressiva e divisionista tem contribuído para a sensação de medo entre muitos acostumados a discutir abertamente os seus direitos e preferências partidárias. Acontece que a polarização dá voz ao discurso de ódio, aumenta a violência política e não sabemos exatamente o que fazer para curar essas fraturas, que travam nossos diálogos sobre o cenário político.
Não desviemos o olhar das eleições de 2022 que foi marcada por uma competição acirrada entre partidos rivais e as campanhas, sobretudo majoritárias foram marcadas por desinformação, retórica agressiva nas redes sociais e serviços de mensagens online. A eleição de 2026 deve repetir o ambiente emocional de 2022 e enrijecer ainda mais a distância entre o campo progressista e conservador, o que reduz ou zera a possibilidade de surgir uma candidatura moderada, por ora.
Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com