Saí dali e dei continuidade à leitura, à pesquisa, agendei entrevistas com parentes e familiares. Na bruma de uma tarde, porém, despontou a voz de um assessor que até então não dera as caras. Lygia não deseja uma biografia, ele disse, tinha entendido mal o meu propósito, achava que seria um trabalho menor de faculdade. Pedia com calidez que eu parasse de imediato, que já não investigasse sua vida, que respeitasse os direitos de sua personalidade. Devo ter guardado alguns segundos de silêncio, era difícil me desfazer de um texto cujos contornos eu já vislumbrava, mas não podia senão aceitar. Foi a única vez na vida que chorei na análise, lamentando o projeto abandonado. E a razão por que decidi a partir dali só trabalhar com autores mortos.
O primeiro desfecho dessa história é redentor e solar. Três anos se passaram, eu estava prestes a publicar meu livro sobre autores cegos, todos mortos, e a revista Entrelivros me convidou para entrevistar e escrever um perfil de Lygia. Eu já não era tão jovem, e parecia sábio encarar a proposta com abertura em vez de mágoa. Voltei àquela casa, recusei o café, aceitei o vinho do Porto, e a entrevista resultou quase idêntica à anterior, embora o discurso de Lygia já se mostrasse mais fragmentário, quase caótico. Não tive certeza de que ela se lembrasse do outro encontro. Não importava: me esmerei na edição da entrevista, escrevi um perfil eloquente e carinhoso daquela mulher inesgotável. E a redenção veio com a publicação, com sua acolhida entusiasmada, seu agradecimento enfático a apagar todo rastro do desencontro passado.
Pensei que aí terminasse a história, mas havia ainda um personagem a encontrar, o leitor já sabe. Quem me alertou para o conto que me escapara foi Raquel Cozer, que está escrevendo agora a biografia de Lygia, com a sabedoria de ter esperado a sua morte. Vá ler “O visitante”, ela me disse, um texto entre a ficção e o testemunho que Lygia publicou em seu último livro, “Conspiração de nuvens”. Suponho que seja do seu agrado, ela emendou, mas não vá chorar de novo.
“O jovem visitante estava interessado em fazer a minha biografia e precisava de algumas informações. Instintivamente recuei e fechei a gola do suéter, biografia?! Pretendia revelar, dentre outras coisas, aquelas que deviam ficar escondidas, era isso? Expor justo aquele retrato que permanecia oculto lá no fundo das cavernas?” Assim começa o conto de Lygia, a história de um sujeito circunspeto que irrompe em sua casa decidido a devassar a sua vida. Aceita não só um café, mas dois, especificando que não exagere no açúcar. E a interroga com palavras escassas, com um olhar inquisitivo, atenciosamente irônico, é como a narradora o descreve.
Porque não quer expor a sua vida, porque não se interessa nem por biografias alheias, que dirá pela sua, é que Lygia prefere se entregar a devaneios. Conversa com o visitante sobre assuntos dispersos, fala sobre Empédocles e a transmigração das almas, sobre Machado e os narradores não confiáveis, fala sobre um relógio que viu em Paris com a inscrição “conto somente as horas felizes”. Pergunta a si mesma se o jovem não poderia acatar o mesmo princípio do relógio, “uma biografia luminosa, só amenidades”, que tal? Como não pergunta a ele, não pode ouvir que sim, que é bem isso o que ele deseja fazer. Não são almas tão distantes, poderiam se entender se dissessem as palavras certas, mas um está mudo e a outra perdida em devaneios.
Depois ela fala sobre as personagens que a visitam, que imploram, exigem, nisso suas memórias coincidem perfeitamente. Fala das vozes que despontam na bruma da tarde, vozes que retornam com insistência pedindo mais uma chance porque não disseram e não fizeram nem a metade do que deviam fazer. Ela se compadece dessas vozes estridentes, só não se compadece do jovem esquivo que tem diante de si. De repente, o texto já quase termina, em grande injustiça, ela tem “a nítida intuição que o visitante nunca leu os livros por onde aquela gente transitou”. E sente alívio quando ele parte, porque sabe que os outros irão insistir, irão voltar, mas não ele.
