Eu adoro uma fofoca. Sou dessas pessoas que, se tá rolando bate-boca no vizinho, pego meu copo de vidro e grudo na parede pra ver se consigo decifrar o teor da discussão. Tenho um prazer secreto ao ver casais brigando na rua e diminuo o passo pra me deliciar por mais tempo com a DR alheia. Se tiver choro, então, melhor ainda.
Como boa ariana, nada me dá mais ódio do que uma fofoca contada pela metade, coisa que, desde o advento do Whatsapp, acontece com demasiada frequência. “Menina, você não sabe quem acabou de se separar?”
“Quem?”, respondo de imediato. Mas passam-se horas sem que eu tenha qualquer resposta. Mando novas mensagens cheias de interrogações até que, em face ao silêncio, supero meu desgosto por falar no telefone e cometo o maior pecado social que alguém pode cometer em 2025: ligo para o ser sem coração nem consciência incapaz de entender que não se manda uma mensagem dessas sem que antes se libere a agenda para as próximas duas horas para que o assunto seja devidamente esvaziado.
Por essas e outras, os acontecimentos da semana passada foram um deleite para meu coração curioso e ansioso por uma fofoca anestésica. Em meio a guerras, catástrofes e países estrangeiros querendo se meter na soberania dos outros, eis que um casal é flagrado pela chamada “tela do beijo” num show do Coldplay em Boston.
O vídeo é uma obra-prima da era digital. Nele, um casal fofo, ambos do alto de seus cinquenta e alguns, cantam juntos enquanto se abraçam. Ele está atrás dela e seus braços envolvem sua cintura. Ambos sorriem, claramente vivendo um momento de alegria, curtindo o romance, sentindo a música. Até que veem no telão a imagem deles próprios. É então que suas fisionomias mudam, o olhar do homem alto de cabelos brancos se transforma em puro pavor e seu corpo se contorce para baixo, como se estivesse literalmente enfiando a cabeça debaixo da terra. A mulher, que até então ostentava um largo sorriso enquanto segurava as mãos do amado, virou-se de costas e colocou as mãos sobre o rosto, tentando resgatar algum anonimato.
Enquanto o casal se escondia, Chris Martin, o cantor da banda, fazia graça com a reação dos dois: “ou eles são muito tímidos ou estão tendo um caso”.
A fofoca veio pronta. A internet, ao contrário, daquela amiga previamente mencionada, é fofoqueira profissional. O chá revelação da traição veio com nomes, sobrenomes, cargos, perfis no LinkedIn.
Eu devorei a fofoca com a fome de quem não tem uma louça pra lavar, um problema pra resolver, uma coluna para escrever. A certa altura, quando já havia ficado a par de muitos dos detalhes sórdidos do affair entre colegas de trabalho, diga-se de passagem, e consumido uma quantidade abissal de memes a respeito do assunto, me perguntei se era eu que estava realmente interessada neste assunto que em nada agregaria à minha vida, ou se era o assunto que não me deixava seguir a vida em paz, tamanho foi o domínio que conquistou durante aquelas fugazes 48 horas. Fugazes para mim, claro que não fui pega traindo meu marido no telão do show do Coldplay. Imagino que, para os casais envolvidos, o tempo deve estar seguindo em outro ritmo.
Em minha defesa, e em defesa das fofocas e fofoqueiros mundo afora, eu acredito na utilidade pública da fofoca e sua capacidade inequívoca de proporcionar aprendizados, não apenas àqueles que são vitimas dela mas também a todos que são impactados por seu storytelling.
Porque fofoca boa é aquela que proporciona risadas e alívio em igual medida. A gente ri da desgraça alheia e dá graças a Deus que não foi com a gente. Duvido que algum CEO de meia-idade tenha a audácia de levar a amante pra algum show do Coldplay daqui pra frente. Deixar de trair, aí seria pedir muito.
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