Os nossos tempos são de desatenção fabricada e desconexão sistêmica. Vivemos em um mundo onde já naturalizamos a violência, as injustiças e as guerras. O imperialismo avança. Já crescemos vidrados sobre a tênue película que nos conecta com a realidade. Mas algumas necessidades da alma exigem um pouso e um compromisso com a materialidade, senão o espírito adoece. Talvez por isso nestes tempos vemos tantos doentes do espírito. Interferiram no tempo da natureza e agora muitos fogem de uma realidade onde estão desorientados.
Sabemos que não existe “lá fora”. Somos o mundo, e nossa vida depende do bem-estar da Terra. Descolar-se da realidade em busca de saúde mental é uma contradição perigosa, pois não existe saúde mental em um ambiente adoecido. Pois a colonização é o produtor da maior loucura e o sofrimento psíquico é um efeito direto da opressão e da negação sistemática da humanidade do outro, como ensina Franz Fanon.
Essa fuga é alimentada por indústrias que querem nos viciar e sequestram nossa atenção para nos vender conteúdos e mercadorias, mas também para nos distrair das estruturas de poder. Nas redes sociais acessamos apenas a superfície das ideias, o que vem gerando intolerância. Cultivar uma atenção profunda, ao contrário, é o primeiro passo para a cura coletiva. A coletividade é importante para a materialidade. E, ao estarmos atentos, podemos ouvir a sabedoria ancestral.
Para os povos indígenas, o tempo é o tempo da natureza. Para os guaranis, o Ara Pyau (Tempo Novo) que surge com a primavera não é uma data no calendário gregoriano, mas um renascimento cósmico. É tempo da comunidade reunida para plantar, rezar na Opy (casa tradicional) e celebrar a vida, num ritmo cíclico de recolhimento (Ara Ymã) e renovação. Respeitando o tempo da natureza e os ciclos.
Fanon nos mostra que a cura não pode ser apenas individual em um mundo coletivamente enfermo. No Jaraguá, as cerimônias de nheemongarai do tempo de Ara Ymã (que serão realizadas neste mês) são importantes para o espírito, para o território e para seu coletivo, mas também para a mente. Apenas medicar sintomas não será suficiente, mas precisamos restaurar a liberdade e a cultura de seu povo.
A sabedoria guarani nos lembra que somos parte de um ciclo maior e que devemos respeitar esses ciclos. O pensamento de Fanon nos obriga a reconhecer que esse ciclo está quebrado pela violência histórica. Portanto, a verdadeira saúde mental hoje é um ato de coragem dupla: é o recolhimento para escutar a si mesmo e a Terra (o Ara Ymã), e é a ação vigorosa para plantar um mundo novo (o Ara Pyau).
Não se trata de escolher entre a interioridade e o mundo, mas de entender, como Fanon e os povos originários, que a fronteira entre os dois é uma ilusão. E que não estaremos bem enquanto nossa comunidade estiver sendo atravessada pela violência colonial e pelo racismo estrutural. O único caminho para um “Tempo Novo” pessoal e coletivo é o compromisso radical com a materialidade da vida, com a justiça e a equidade e com a reparação das desconexões que nos adoecem.
O ano só começa de verdade quando nos tornamos conscientes e ativos nesta dança.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
