Os que sabem muito bem que estão embaixo
Que diferença entre os juízos preconcebidos sobre o Corintians e a experiência que acabo de ter num ônibus da caravana organizada pelos Gaviões da Fiel!
É sabido que o grosso da base social do Corintians tem extração popular: é o time do povo, dos “indignos”, dos pobretões de espíritos, dos cajonas, de certas minorias imigrantes. A torcida organizada não desmente tal fato, incluindo operários e as profissões mais baixas do terciário, serventes, motoristas, secretárias, balconistas, zeladores, havendo uma porcentagem elevada de negros e mulatos, gente sem estudo, de “mau gosto”, os tipos ideais para serem cantados em verso, prosa e teses.
O que essas pessoas fazem durante a viagem? Ao contrário do que muitos pensam, fantasiam e, antes de tudo, temem, não se trata de um bando de fanáticos que investem seus parcos rendimentos e suas emoções para compensarem, num registro mágico, toda sorte de carência. O Corintians não é apenas uma fonte eventual de alegrias e muito menos o depositário-mor de esperanças messiânicas. A trajetória sem títulos nos últimos 22 anos torna inconsistente qualquer explicação que vincule a extensão de sua base social ao desempenho do time. São de todo inconvincentes as análises que recorrem aos argumentos do atavismo, da natureza, da identificação passional.
Os Gaviões que conheci gostam sobretudo de conviver: entornar batidas, fazer batuque, puxar samba, contar piadas cabeludas, aceitar gozações certeiras, em suma, têm prazer de estar juntos. A travessia ao encontro do time constitui um tempo forte de suas vidas, durante o qual, dentro de certos limites de “respeito”, tudo é permitido. Para os que se excedem, alguém lembra daqueles que foram advertidos e mesmo dos pouquíssimos expulsos. A rigor, eu diria que o Corintians nem é o dado mais relevante dessa transação: o fato de pertencerem a uma torcida organizada para cujo ingresso é preciso dar provas de haver incorporado a “filosofia”, o fato de extraírem daí uma identidade relativamente impermeável ao restante de suas vidas, o fato de terem uma história comum, vale dizer, um calendário de vitórias e derrotas, de bebedeiras e pauleiras, de brigas e prisões, tudo isso e mais o orgulho que têm de sua própria organização, eis o perfil dos corintianos. Mas não se deve pensar que se trate de uma organização amorfa, ou então, espontaneísta: ao contrário, dispõe de uma liderança, de uma hierarquia interna com antigos militantes exigindo a reverência dos jovens Gaviões, de tradições, de símbolos.
O destempero vocabular, a fatura de breques, de xingamentos poetizados, o cavalo de São Jorge, o charuto, o acordeon, a simulação de licenciosidades, enfim uma série de práticas e referências comuns que dão força e coesão ao ser e ao fazer corintianos. Não é de repente que se consegue apreender os princípios de uma lógica alimentar que mistura olho-de-sogra ou bolacha doce com uísque, ao que se segue frango com farofa e cerveja.