27/02/2026

27 de fevereiro de 2026 18:57

Planalto e Congresso priorizam eleições e deixam Brasil real de lado

Foto: reprodução

Há dois Brasis neste momento: o Brasil real e o Brasil eleitoral. O problema é que o segundo passou a comandar o primeiro. Executivo e Legislativo já operam sob lógica de disputa antecipada. Cada movimento é calculado para outubro. Cada declaração é um ensaio de palanque. Enquanto isso, o país que produz, investe e paga imposto fica em segundo plano.

As decisões econômicas refletem essa inversão de prioridades. O aumento de impostos de importação sobre bens de capital encarece máquinas e tecnologia justamente quando a indústria brasileira precisa ganhar produtividade.

Num país cuja participação industrial no PIB encolheu drasticamente nas últimas décadas, penalizar investimento é comprometer competitividade. A lógica não é industrial, é fiscal. Precisa-se arrecadar para sustentar despesas crescentes. Quando o gasto corrente dita a política econômica, o investimento vira variável de ajuste.

Mais imposto para tapar buraco fiscal. Menos investimento para crescer.

No mesmo ambiente surgem propostas como a mudança da escala 6×1. A redução da jornada pode soar socialmente atraente, mas, sem aumento equivalente de produtividade, representa elevação direta de custo para quem emprega. E o custo maior, em cenário de crédito caro e crescimento frágil, tende a significar menos contratação formal, mais informalidade e pressão adicional sobre preços. O Brasil já convive com elevada informalidade; encarecer o emprego formal pode ampliar exatamente essa distorção.

O endividamento também avança em todas as frentes. Famílias pressionadas, empresas alongando passivos e o próprio governo expandindo sua dívida para manter a máquina funcionando. Esse quadro limita o Banco Central. Sem previsibilidade fiscal consistente, não há espaço seguro para juros de um dígito no curto prazo. Não é debate ideológico, é restrição matemática.

Dívida sobe. Juros travam. Crescimento encolhe.

No cenário internacional, o risco aumenta. Pressões políticas por cortes de juros nos Estados Unidos e possíveis mudanças na direção do Federal Reserve estimulam investidores a buscar rentabilidade fora do dólar. O Brasil, com uma das maiores taxas reais do mundo, torna-se destino atrativo. Mas é um capital sensível: entra rápido e sai mais rápido ainda. Qualquer ruído fiscal ou institucional pode provocar saída abrupta, pressionando câmbio, reacendendo a inflação e ampliando o risco-país.

Enquanto isso, o debate estrutural está suspenso. Reforma administrativa, reorganização do gasto, produtividade e infraestrutura ficaram em segundo plano. O acordo Mercosul–União Europeia avança em vizinhos, e o Brasil ainda caminha sem senso de urgência. Investigar é necessário; substituir agenda de país por agenda de desgaste não é.

O que se observa é política voltada para sobrevivência eleitoral, não para prosperidade nacional. Olha-se para o próprio umbigo, não para a pátria.

Aumentar imposto para sustentar gastos, ampliar dívida para sustentar discurso e antecipar palanque para sustentar poder não é estratégia de desenvolvimento. É gestão de curto prazo com custo de longo prazo.

Brasília antecipa a eleição. O Brasil adia o futuro.

O Brasil ainda tem força produtiva e mercado relevante. O que falta não é potencial, é direção. Se Brasília continuar olhando apenas para outubro, o país pode chegar a 2027 mais endividado, com indústria mais frágil, desemprego maior e dependente de capital volátil.

A política pode disputar narrativa. Mas a economia entrega resultado. E o resultado não se edita.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

O post Planalto e Congresso priorizam eleições e deixam Brasil real de lado apareceu primeiro em Canal Rural.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Prefeitura promove desfile de pets com premiação de até R$ 1.000

A Prefeitura Municipal de Pontal do Araguaia (MT) promove, na próxima terça-feira (3), às 19h,…

Idosos desfilam e esbanjam carisma em concurso da Melhor Idade em Rondonópolis

Com direito a passarela, torcida e música, a Secretaria Municipal de Promoção e Assistência Social…

Arbitragem de Palmeiras x São Paulo terá Daiane Muniz no comando e mais quatro mulheres; veja os nomes

A FPF (Federação Paulista de Futebol) divulgou a arbitragem das semifinais do Paulistão e o…