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23 de janeiro de 2026 12:14

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Poder pensar como o outro não basta – 22/01/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Com 16 bilhões de neurônios no córtex cerebral, nós humanos temos a capacidade biológica de construir crenças sobre o mundo. Operamos sobre elas: esperamos, por exemplo, que uma caneta largada no ar caia ao chão (a não ser que você seja um astronauta que acaba de retornar da estação espacial, longe da gravidade da Terra, em cujo caso você espera que a caneta largada no ar continue exatamente onde está, para a sua confusão quando ela cai e diversão de quem assiste).

Da mesma forma, esperamos que um objeto continue no último lugar em que o guardamos –e esperamos que as outras pessoas também pensem assim, e ajam de acordo. Nós, então, agimos também de acordo com o que esperamos que os outros devem estar esperando.

Essa capacidade de representar em nosso cérebro o que o outro deve estar esperando é chamada “teoria da mente”. O nome é problemático, e deveria incluir um “alheia”: trata-se não de uma teoria sobre como a mente funciona, mas da capacidade de formar uma expectativa sobre a expectativa da mente alheia. Em suma: pensar como o outro.

Poder pensar como o outro é uma capacidade biológica. Mas, como eu acabo de ensinar aos meus alunos do curso de evolução do cérebro e do comportamento, o fato de uma espécie ter uma capacidade biológica não significa que ela já seja usada ao nascer. Primeiro, há capacidades biológicas que ainda estão se desenvolvendo; no caso da teoria da mente, os circuitos cerebrais que a permitem no córtex cerebral humano só parecem ficar aptos lá pelos cinco anos de idade.

Depois, a existência de uma capacidade não garante que ela seja usada, nem que ela se manifeste como uma habilidade de fato. A diferença entre a capacidade e a habilidade é nossa experiência com ela, e a transformação da primeira na segunda acontece com o processo de aprendizagem, que é exatamente a modificação dos circuitos do cérebro conforme eles são usados e isto funciona, mas aquilo, não.

E nem assim o uso da tal capacidade é garantido. Fiquei espantada quando um colega mencionou que dois terços dos adultos não usam sua capacidade de pensar como o outro, e fui lá caçar as referências para ver eu mesma (bons cientistas não ficam insultados quando a gente pede para ver os dados; pelo contrário, isso é sinal de interesse, de ser levado a sério).

O estudo original, de 2003, e sua replicação por outro grupo, em 2010, concordam. Os participantes –sempre universitários, a população mais facilmente ao alcance de pesquisadores– comprovadamente sabem que o “instrutor”, do outro lado de uma estante parcialmente vazada, não vê a menor de três bolas na estante, mas, quando o “instrutor” lhes pede para pegar “aquela bola menor”, entre 60 e 70% dos participantes ainda assim pegam a bolinha que o “instrutor” não vê, em vez da segunda menor bola, que é, para o “instrutor”, “aquela bola menor”.

É um tanto chocante, mesmo que não surpreendente, constatar que tantas pessoas dispõem de informação, mas não usam –supondo, é claro, que universitários sejam de fato representativos da humanidade. Isso me faz pensar nas tantas desavenças do mundo moderno, que não se pode mais dizer que se devem a falta de informação. O problema é ter que se lembrar de pensar como o outro, porque capacidade não é garantia de habilidade.


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