Segundo porque nenhum homem se enxerga como criminoso. O que eles fazem é normal. Ter amantes, engravidar e mandar abortar, silenciar, interromper, não escutar, não contratar, não igualar salários, forçar o sexo com a mulher dormindo ou sonolenta, elogiar o corpo da funcionária, piadas machistas com os amigos, compartilhar nudes de mulheres, não criticar o amigo machista, tratar filhos e filhas de maneira diferente, encorajar o filhão a ser garanhão e a filinha a ser santa, reclamar da roupa da namorada, comentar sobre o peso da mulher, ter crise de ciúme e sair esmurrando portas e paredes etc. Eu poderia seguir eternamente nessa lista. Mas quero dizer que isso tudo é entendido como normal na vida de muitos dos que agora se revoltam contra o número absurdo de feminicídios. Mas essa lista não é normal; ela é a monstruosidade em carne e osso.
Eis a realidade contra a qual esperneiam: os que agem assim são aliados e cúmplices da violência entendida como violência (estupro e feminicídio) praticada por homens contra mulheres. Não existe a separação: trata-se de um mesmo fio de violência com começo, meio e fim. Estar no começo e deixar de se enxergar no meio não é motivo para medalhas.
Lula está jogando para a torcida feminina. É muito pouco ter que escolher entre um fascista-machista ou um homem de centro-esquerda machista. Para nós, mulheres, a noção de que o melhor presidente que o Brasil já teve, que o político mais inteligente que essa nação já produziu é absolutamente inapto para questões de gênero é um tapa na cara.
O que pode conferir confiança é a ideia de que Lula, quando quer, aprende rapidamente. A teoria feminista está aí para ele se letrar. Temos mais de um ano para a eleição. Quem sabe ele chegue ao final de 2026 como um machista reformado e com a compreensão de que ninguém pode fazer mais coisas do que ele em nome da nossa segurança e liberdade.
