02/02/2026

2 de fevereiro de 2026 12:46

Quais os desafios e as oportunidades para o agro em 2026?

Foto: Seagro/Governo Tocantins

O ano de 2026 traz importantes perspectivas para o agronegócio brasileiro. A combinação entre eleições federais e estaduais, um cenário geopolítico instável, pressões econômicas globais e eventos climáticos cada vez mais severos cria um ambiente de incerteza que exige atenção redobrada do setor.

Mais do que prever rupturas, o desafio está em compreender como essas variáveis se conectam e moldam o ambiente de decisões que impacta o agro, não apenas “da porteira para dentro”, mas ao longo de toda a cadeia, até os mercados internacionais.

Como principal destaque, as eleições de 2026 colocam, novamente, no centro do debate a tradicional disputa entre projetos políticos de esquerda e direita. Em anos eleitorais, é comum que o ritmo das decisões no Congresso Nacional e nos governos estaduais seja influenciado por agendas de curto prazo e pelo cálculo político.

É provável que haja um deslocamento de prioridades: agendas estruturantes perdem velocidade, enquanto temas de maior apelo político ganham protagonismo. O cenário não é necessariamente de paralisia, mas de maior seletividade política, em que consensos serão mais difíceis e o diálogo técnico se torna cada vez mais necessário. Nesse contexto, o agronegócio parte de uma posição diferenciada em relação a outros setores.

Independentemente do resultado eleitoral, o setor mantém uma presença consistente no Legislativo federal ao longo das décadas, com uma bancada numerosa e articulada, eleita justamente a partir da relevância econômica e social do agro em diferentes regiões do país. Essa representação tem sido fundamental para garantir que temas estratégicos não sejam tratados apenas sob um viés ideológico, mas também sob a ótica da produção, da segurança alimentar e da competitividade.

Isso foi demonstrado em votações relevantes ao longo dos anos, como a aprovação da Lei do Autocontrole no governo Bolsonaro e os avanços nos debates sobre o Licenciamento Ambiental e o Marco Legal dos Defensivos Agrícolas no governo Lula.

Do ponto de vista econômico, 2026 deve seguir marcado por cautela. Juros globais ainda elevados, volatilidade cambial, custos de insumos e ajustes fiscais em diferentes países continuam pressionando os custos de produção e as decisões de investimento. Ao mesmo tempo, o agronegócio segue como um dos principais pilares da economia brasileira. Responsável por parcela significativa do PIB, das exportações e da geração de empregos, o setor funciona como um amortecedor em momentos de desaceleração econômica.

A demanda global por alimentos permanece como um fator estrutural de sustentação, mesmo diante das oscilações de mercado. O desafio estará em manter competitividade e previsibilidade regulatória em um cenário financeiro mais restritivo. No plano internacional, a geopolítica seguirá influenciando diretamente o agro brasileiro, especialmente por meio dos acordos comerciais e da busca por acesso a novos mercados para os produtos brasileiros, especialmente após os desdobramentos do tarifaço em 2025.

O Ministério da Agricultura tem papel importante nesse processo, com o trabalho dos adidos agrícolas, que têm auxiliado de forma substancial essa agenda. O acordo entre o Mercosul e a União Europeia continua sendo uma das principais apostas estratégicas. Embora ainda enfrente resistências políticas e ambientais dentro da Europa, um avanço, ainda que tímido, representaria uma oportunidade relevante de diversificação de mercados, aumento de valor agregado e maior previsibilidade nas relações comerciais.

A China segue como parceiro central do agro brasileiro, tanto pela demanda consistente por commodities quanto pelo papel estratégico que desempenha na segurança alimentar global. A relação tende a permanecer pragmática, baseada em volume, regularidade e competitividade, ainda que sujeita a ajustes conforme o cenário geopolítico internacional. Já os Estados Unidos continuam exercendo influência decisiva, seja como concorrente direto em diversos mercados, seja como formulador de padrões tarifários e comerciais que impactam terceiros países.

A relação com o Brasil apresentou melhorias desde o início de 2025, mas deve seguir marcada, em 2026, pelo pragmatismo do presidente Donald Trump. Os impactos climáticos, cada vez mais frequentes e intensos, deixam de ser uma variável excepcional para se tornarem parte do planejamento permanente do setor.

Eventos extremos, alterações nos regimes de chuva e perdas produtivas exigem políticas públicas mais coordenadas, instrumentos de seguro mais robustos e maior integração entre as agendas ambiental, agrícola e econômica. Nesse contexto, o papel do Estado e da articulação entre governo e setor produtivo será decisivo para transformar risco em resiliência.

O cenário de 2026 aponta para um período de ajustes e para a necessidade de diálogo qualificado. Assim, o agronegócio brasileiro entra nesse ciclo com ativos importantes: capacidade produtiva, tecnologia, protagonismo internacional e uma base política que reconhece sua relevância estratégica.

Mais do que esperar respostas prontas, o setor será chamado a participar ativamente da construção das soluções. Em um mundo mais fragmentado e imprevisível, a previsibilidade virá menos de discursos e mais da capacidade de articulação, planejamento e leitura estratégica do ambiente político e econômico.

*Rebecca Lucena é diretora de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e cofundadora da rede Women Inside Trade (WIT)


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