13/01/2026

13 de janeiro de 2026 16:39

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Salário mínimo: o problema não é o aumento, é a ausência de um projeto de país

Foto: Artur Luiz

O aumento real do salário mínimo voltou ao centro do debate econômico. Economistas, analistas e parte da imprensa alertam para os riscos fiscais da medida, lembrando que o piso nacional está indexado a uma série de benefícios previdenciários e assistenciais, o que amplia automaticamente as despesas do Estado. A crítica, do ponto de vista técnico, faz sentido. Mas ela para aí.

É impossível analisar o salário mínimo apenas como uma variável contábil. Ele é, antes de tudo, um instrumento social. E é aqui que o debate costuma empobrecer. Quem critica o aumento raramente apresenta uma alternativa viável para os milhões de brasileiros que dependem diretamente desse valor para sobreviver.

É preciso ser honesto: o salário mínimo brasileiro não permite uma vida digna. Não cobre moradia adequada, alimentação completa, transporte, saúde e educação. Não por acaso, uma parcela crescente da população prefere a informalidade a um emprego formal que paga pouco e exige muito. Hoje, quase 40% da economia brasileira opera fora da formalidade, um sintoma claro de falha estrutural, não de escolha individual.

Diante desse cenário, imaginar que um presidente em campanha faria diferente é desconhecer a lógica da política. Para Luiz Inácio Lula da Silva, que se aproxima do fim de sua trajetória política e busca encerrar a carreira sem derrotas, abrir mão de uma política de valorização do salário mínimo simplesmente não existe como opção. E, sejamos francos, qualquer outro candidato no mesmo contexto faria o mesmo.

O problema, portanto, não está apenas no reajuste. Está na ausência de um projeto estrutural de país. O Brasil é um dos piores países do mundo em distribuição de renda. Cresce pouco, arrecada mal, gasta mal e transfere responsabilidades sociais para medidas emergenciais que viram permanentes por falta de alternativas melhores.

E há ainda um componente perverso que aprofunda esse impasse: a ideologia no Brasil deixou de ser sobre projetos e passou a ser sobre pessoas. Em vez de disputas entre modelos de desenvolvimento, caminhos econômicos ou políticas públicas estruturantes, o país mergulhou em uma polarização personalista e improdutiva.

Critica-se o presidente, o partido, o adversário, mas quase nunca se discute seriamente qual projeto poderia ocupar o lugar do que se critica. Essa ideologia vazia não constrói alternativas; apenas paralisa o debate e transforma qualquer política pública em arma política, mesmo quando ela trata de questões básicas de sobrevivência social.

O Congresso critica, mas não propõe. O Executivo reage, mas pensa no curto prazo. E a sociedade cobra pouco, aceita muito e se conforma com soluções improvisadas.

Criticar a indexação do salário mínimo é fácil. Difícil é apresentar um modelo que combine crescimento econômico sustentável, geração de empregos formais, qualificação da mão de obra, reforma do gasto público e políticas sociais que emancipem, em vez de apenas compensar.

O Brasil não é um país qualquer. É continental, produtor de alimentos, energia e riqueza. Tem tudo para ser protagonista global. Mas segue refém de uma mediocridade institucional que se repete no Executivo, no Legislativo e, muitas vezes, na própria sociedade, que não compreende o papel estratégico que poderia ocupar.

Enquanto o debate continuar restrito ao “pode ou não pode aumentar o salário mínimo”, estaremos discutindo o sintoma — e não a doença. O verdadeiro problema não é o aumento. É a falta de coragem política, visão de longo prazo e maturidade institucional para estruturar o Brasil que insiste em sobreviver no improviso.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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