Tampouco é decente que o Santos tenha deixado de orientar o garoto para adotar outro nome como profissional. O Junior não tem nenhuma responsabilidade pelo crime cometido pelo pai e tem todo o direito a uma vida plena e de sucesso, mas manter profissionalmente o apelido do procriador – preso por estupro – é jogar na nossas caras que pouco importa o que Robinho fez. Neymar mesmo disse outro dia a respeito do Junior que se sente bem por estar ao lado dele diante de tudo o que o pai está passando. O pai está passando? Nada sobre a mulher estuprada? Como ela estará? O que o pai está passando é efeito do crime que ele cometeu.
Seria preciso que os profissionais da área entendessem que a simples menção do nome de Robinho causa gatilhos em muitas mulheres que amam esse jogo. A imagem dele é a imagem de nossos abusadores. A condescendência com ele é a condescendência com nossos abusadores. Escutar ele ser citado com elogios a sua performance enquanto atleta e sem ressalva alguma é repulsivo. Seria preciso que houvesse a ponderação e a contextualização. Elogiar o jogador sem deixar de falar do homem. Não se separa uma coisa da outra.
Robinho está preso por um crime hediondo. As mulheres que assistem ao jogo sabem exatamente o que acontece com nossas vidas depois do estupro, do abuso, do assédio, da importunação. Que os narradores ignorem essa parte da história é violento e indigno. Robinho não é vítima de coisa alguma; ele é o algoz. Elogiá-lo sem ressalvas é dizer que o que ele fez não é nada, não importa. Colocá-lo na posição de vítima, como fez Neymar, soa como um apoio ao crime que ele cometeu e pelo qual está preso.
Robinho pode compreender a gravidade do que fez e sair da prisão reformado. Não apostaria nisso, mas seguir acreditando que as pessoas se transformam é, para boa parte de todas nós que amamos esse jogo, ferramenta de sobrevivência. A gente ama um esporte que nos odeia e que todos os dias, mesmo que seja através da voz alegre e pretensamente simpática de muitos narradores e comentaristas, reafirma esse ódio.
