Com a divulgação dos resultados de dezembro das pesquisas do IBGE para a indústria, serviços e comércio, os economistas fazem os últimos ajustes nas previsões para o crescimento do último trimestre e também de 2025. A expectativa dos analistas é de uma variação do Produto Interno Bruto (PIB) próxima de zero em relação ao trimestre anterior, depois de a economia ter crescido 0,1% no terceiro trimestre nessa mesma base de comparação. Na primeira metade de 2025, o crescimento foi mais forte. No primeiro trimestre, o PIB teve expansão de 1,5%, puxada pela agropecuária; no segundo, a alta foi de 0,3%.
A XP, por exemplo, estima crescimento do PIB de 0,1% no quarto trimestre, esperando avanço de 2,3% em 2025. Já a BRCG Consultoria calcula que a economia ficou estável nos três últimos meses do ano. Para o número do ano, a previsão é de uma alta de 2,2%.
De forma geral, tanto indústria, serviços e comércio reforçaram o sinal de desaceleração gradual da economia no fim de 2025, em um cenário de juros elevado e fim dos impulsos trazidos pela safra agrícola recorde do ano passado e o pagamento de precatórios. Apesar disso, analistas esperam um repique da atividade no começo deste ano, na esteira da nova safra, da isenção do Imposto de Renda (IR) para quem recebe até R$ 5 mil e outros programas do governo.
Última das sondagens setoriais a ser divulgada, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) mostrou que o varejo restrito contraiu 0,4% em dezembro. Com isso, encerrou o quarto trimestre do ano com alta de 1% ante o terceiro e com avanço de 1,6% no ano fechado. Já o varejo ampliado – que agrega veículos e motos, peças e pares, material de construção e atacarejo – contraiu 1,2% na variação mensal mas fechou o trimestre com alta de 1,5%, na margem. Em 2025, por sua vez, ficou praticamente estável (+0,1%) após dois anos de forte crescimento.
O desempenho relativamente mais fraco do varejo ampliado pode ser explicado principalmente pelos setores sensíveis ao crédito, prejudicados pelo forte grau de aperto monetário adotado pelo Banco Central ao longo de todo o ano passado. Segundo cálculos da XP Investimentos, o grupo de atividades varejistas sensíveis ao crédito acumulou retração de 0,8% no ano, enquanto produtos mais sensíveis à renda avançaram 1,3%.
“A gente tem vista um mercado de trabalho muito forte, a melhora da renda, mas isso não tem se refletido no mesmo ritmo de o consumo. O varejo não tem sentido esse mesmo ritmo de crescimento”, avaliou o pesquisador do FGV Ibre, Rodolpho Tobler.
Gerente do IBGE responsável pela pesquisa, Cristiano Santos pondera que o bom desempenho em 2023 e 2024 deixou uma base alta de comparação. “Foram dois anos de crescimento forte em vendas de veículos, o que colocou esse número numa base alta. Então, tem um pouco desse efeito estatístico”.
Responsável por aproximadamente dois terços do PIB brasileiro, o setor de serviços também mostrou fraqueza em dezembro. Segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), o volume de serviços prestados no país contraiu 0,4% no último mês do ano. Na comparação entre o quarto e o terceiro trimestre, houve estabilidade. Já em 2025, o setor registrou alta de 2,8% – a quinta consecutiva, período no qual acumulou ganho de 31%.
Como em anos anteriores, o segmento de serviços de tecnologia da informação e comunicação (TIC) foi destaque, com alta de 6,2%. O ramo vem se beneficiando da digitalização da economia e tem sustentado altas taxas de crescimento a despeito do alto patamar dos juros – muitos dos gastos desse tipo são considerados investimento, em infraestrutura ou software.
Por outro lado, os serviços prestados às famílias – categoria que pesa mais para a dinâmica da inflação – expandiram apenas 1,1% ano passado, forte desaceleração ante a alta de 4,5% em 2024.
“É preciso notar que, apesar de vir mais fraco nos últimos meses, os serviços ainda assim tiveram o melhor desempenho entre os três setores pesquisados pelo IBGE”, ressalta o economista-chefe do BMG, Flavio Serrano.
Por fim, a indústria segue sendo o setor de pior desempenho. Segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), a indústria amargou queda de 1,2% na passagem de novembro para dezembro – o pior desempenho para o mês desde 2019. Com isso, acumulou contração de 0,5% no quarto trimestre.
O mau desempenho – principalmente a partir do segundo trimestre, no entanto, não impediu o setor de emendar o terceiro ano seguido de alta, ao subir 0,6%. Ainda assim, está 16,3% abaixo do patamar recorde, atingido em maio de 2011.
A performance reflete sobretudo o alto grau de aperto monetário – a indústria de transformação caiu 0,2% após alta de 3,7% em 2024. O crédito mais caro desincentiva consumidores a comprarem bens duráveis e empresas a investirem. O setor extrativo, por sua vez, subiu 4,9%.
“O setor foi o mais afetados pelas condições adversas em 2025, no caso, a elevada taxa de juros e o tarifaço imposto pelos EUA que, apesar do recuo parcial, ainda é válido sobre boa parte dos produtos que possuem mercado americano”, diz André Valério, economista sênior do Inter.
As pesquisas setoriais do IBGE são insumo das projeções dos economistas para o PIB do quarto trimestre e também de 2025 – o IBGE divulga ambas em 3 de março. Antes disso, na quinta-feira pós-carnaval (19), a autoridade monetária divulga o IBC-Br, também conhecido como prévia mensal do PIB, que também é usada por alguns para refinar suas estimativas.
Na média do quarto trimestre ajustada sazonalmente, o varejo ampliado teve alta de 1,49% em relação à média do trimestre anterior, enquanto os serviços avançaram 0,80%. A indústria, por sua vez, recuou 0,65%.
“Os indicadores de alta frequência só sugerem, no último trimestre do ano, uma desaceleração mais evidente na indústria – o que já era esperado. Variáveis mais ligadas à demanda, seja de bens ou de serviços, seguiram avançando, mesmo reconhecendo uma maior volatilidade ao final do ano. O momento é de moderação no ciclo econômico, e não de reversão”, escreve a BRGC em relatório a clientes. A consultoria espera estabilidade no quarto trimestre e alta de 2,2% para o PIB em 2025, com desaceleração para 1,6% no biênio 2026-27.
Também em comentário a clientes, a XP diz que a economia brasileira perdeu fôlego na segunda metade de 2025, mas que alguns fatores atuaram como amortecedor do movimento. “Por exemplo, o mercado de trabalho segue robusto, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e o aumento contínuo da renda real. Nesse contexto, os setores sensíveis à renda continuam mostrando resiliência”, diz a corretora, cujo indicador de alta frequência da corretora aponta para um crescimento do PIB de apenas 0,1% no último trimestre, o que levaria o ano acumular alta de 2,3%.
Mesma projeção para 2025 faz o C6 Bank, que, no entanto, estima alta de 0,2% entre outubro e dezembro de 2025, na comparação com julho a setembro. “Já para 2026, projetamos que o PIB avance 1,7%, uma vez que medidas de estímulo promovidas pelo governo, como o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda, devem evitar um esfriamento mais intenso da atividade econômica.”
O ABC Brasil, por sua vez, manteve sua projeção de alta de 2,4% para o PIB de 2025 após os dados setoriais do IBGE. Para 2026, a expectativa é de desaceleração para 1,7%.
