13/01/2026

13 de janeiro de 2026 17:08

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Você consegue ser você mesma em horário comercial? – 30/12/2025 – Joanna Moura

Nas últimas semanas, entre arrumações de caixas, preenchimento de formulários e malabarismos para distrair as crianças durante as férias, nas poucas horas vagas (ou seriam minutos?) engatei numa nova série. Uma não, duas.

Ando vendo e gostando muito de “Pluribus”, série do mesmo autor dos muito bem sucedidos “Breaking Bad” e “Better Call Saul”. Para minha infelicidade, na contramão de outros serviços de streaming, a Apple TV, produtora e distribuidora da série, só publica um episódio por semana. E então me restam seis outros dias em que preciso ocupar meu tempo com outra série.

E foi nessa busca por tapar um buraco nas minhas necessárias horas de desligamento do cérebro que encontrei “Severance” (“Ruptura” é o título em português), também produzida pela Apple TV e que já conta com duas temporadas completas. Lançada em 2022, a série parte daquele desejo oculto que todo chefe já sentiu ao se deparar com um funcionário que teve seu coração partido fora do horário comercial, mas trouxe a dor de amor para atrapalhar o serviço. E se conseguíssemos deixar a nossa vida pessoal fora do trabalho?

Em “Severance”, uma empresa oferece a alguns de seus funcionários um procedimento que separa por completo as memórias da vida pessoal e da vida profissional. Quem entra no escritório não sabe nada sobre quem é fora dali; quem volta para casa não tem qualquer lembrança do que fez durante o expediente. Pessoas diferentes, que dividem o mesmo corpo.

A série é ótima, especialmente porque combina com maestria a premissa absurda, com situações desconcertantemente semelhantes ao que se vive no ambiente corporativo do mundo real. Metas agressivas atingidas recompensadas com presentes insignificantes, cerimônias de adoração de altos executivos como se fossem deuses, dinâmicas de grupo feitas para integrar e que só servem para constranger. Tudo o que eu, você e todo mundo que já viveu o mundo corporativo por tempo suficiente com certeza já presenciou ao vivo e a cores.

Mas o mais desconcertante ao assistir “Severance” foi perceber que a premissa —de se tornar outra pessoa durante horário comercial— é uma paródia da realidade, ou pelo menos da realidade de boa parte das mulheres.

Uma pesquisa feita pelo Estúdio Clarice, iniciativa voltada à pesquisa e à produção de narrativas sobre a relação das mulheres com o poder no Brasil, entrevistou 2.000 pessoas em todo o país e mostrou que 1 em cada 3 mulheres sente que precisa mudar a maneira de falar e de se vestir, controlar gestos e esconder a própria personalidade para ser aceita socialmente. Mesmo assim, só 34% delas afirmam sentir que têm voz no ambiente de trabalho.

Ler sobre a pesquisa enquanto vejo a série foi como um sinal divino, um daqueles momentos em que uma luz se ilumina sobre nossas cabeças, clareando as ideias, colocando as coisas em perspectiva. Fui transportada para o passado, para salas de reunião em que me senti inadequada, para momentos em que me fantasiei para ir trabalhar, para parecer mais velha, para parecer mais jovem, para imprimir mais autoridade, para imprimir mais simpatia, para ser alguma versão de mim que não aquela que habita o meu corpo fora do horário comercial.

Em 2026, desejo que a ficção se pareça menos com a realidade. Que nós mulheres possamos ser mais inteiras e que nos sintamos seguras para sermos nós mesmas no trabalho e na vida.


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