No Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores do Campo, celebrado nesta sexta-feira (17), especialistas alertam que a garantia de direitos no meio rural brasileiro ainda enfrenta importantes desafios relacionados à precarização das condições de trabalho.
A avaliação foi feita à Agência Brasil pela auditora-fiscal do Trabalho e representante da Delegacia Sindical de Minas Gerais do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Sinait), Alessandra Bambirra.
Apesar do avanço da mecanização em diversas cadeias produtivas, ainda persiste uma grande desigualdade entre trabalhadores rurais e urbanos, especialmente no acesso à educação, informação, internet e meios de comunicação.
Segundo a auditora, a fiscalização revela um cenário de maior vulnerabilidade no campo. Ela destaca que, ao mesmo tempo em que há propriedades altamente tecnificadas e mão de obra qualificada, ainda são identificadas situações de trabalho degradante em diferentes regiões do país.
“A gente tem uma discrepância muito grande quando trabalha com a fiscalização porque vê uma vulnerabilidade muito maior nos trabalhadores do campo”, afirmou.
Além das diferenças socioeconômicas, também são registrados casos extremos de exploração. De acordo com Alessandra Bambirra, o trabalho análogo à escravidão ainda está presente no Brasil, tanto em áreas urbanas quanto rurais, sendo mais crítico no campo.
Trabalho escravo e vulnerabilidade
Entre as situações mais recorrentes estão jornadas exaustivas, condições precárias de moradia e servidão por dívida, quando o trabalhador é impedido de deixar o emprego devido a cobranças abusivas feitas pelo empregador.
“Principalmente nas jornadas exaustivas, nas condições degradantes de moradia ou alojamento, servidão por dívida, na qual o empregador cobra do trabalhador tudo que seria obrigação dele”, explicou.
A auditora ressalta que Minas Gerais é referência no combate ao trabalho escravo, mas reforça a necessidade de maior estrutura e equipes para ampliar a fiscalização e garantir resultados mais efetivos.
Cadeia produtiva e certificação
Segundo Alessandra, políticas públicas mais eficazes são fundamentais para enfrentar o problema, incluindo a responsabilização de toda a cadeia produtiva.
Algumas empresas dos setores de café, cana, cacau e sisal já têm buscado associar suas marcas a processos produtivos livres de exploração, trabalho infantil e condições degradantes.
A auditora defende que a certificação deve abranger não apenas o produto final, mas todo o processo de produção.
O trabalho no campo também segue marcado pela informalidade, o que amplia a vulnerabilidade social e previdenciária dos trabalhadores. Muitos dos resgatados em situações irregulares vêm de regiões mais pobres, frequentemente aliciados por intermediários conhecidos como “gatos”.
Integração e políticas públicas
Para a especialista, o enfrentamento dessas desigualdades exige integração entre poder público e setor produtivo, além de políticas estruturantes.
“O trabalho no campo nunca vai ser desnecessário, porque a população do mundo só aumenta e precisamos de mais alimentos”, destacou.
Ela reforça que áreas como saúde, educação, infraestrutura e previdência são essenciais para reduzir a disparidade entre o campo e os centros urbanos.
Monitoramento e ações fiscais
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego apontam que o Brasil possui políticas reconhecidas internacionalmente, como o modelo de Previdência Rural citado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A atuação da Auditoria-Fiscal do Trabalho também inclui o monitoramento de informalidade e condições de exploração laboral em todo o país.
Em Minas Gerais, foram realizadas 783 ações fiscais em 2025, com a identificação de 2.063 trabalhadores em situação irregular e quase 4 mil irregularidades relacionadas à saúde e segurança.
Operações recentes resultaram ainda no resgate de trabalhadores em lavouras de café e carvoarias, onde foram encontradas condições degradantes e, em alguns casos, presença de famílias inteiras, incluindo crianças e adolescentes.
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