No pedido de recuperação judicial protocolado nesta quarta-feira (22), a SAF do Botafogo solicitou que a Justiça proíba, durante o período que durar a intervenção no clube, que jogadores pssam rescindir contrato ou se recusarem a entrar em campo por falta de pagamentos referentes aos débitos anteriores à data de 21 de abril de 2026.
Como já mostrou a ESPN nesta quarta, o Glorioso exigiu que a 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro “suspenda as execuções e demais medidas de cobrança” contra o clube, além de proibir “qualquer forma de retenção, arresto, penhora, sequestro, busca e apreensão e constrição judicial ou extrajudicial sobre os bens” da SAF.
Nos pedidos feitos à Justiça, porém, o time carioca vai além e requer que o tribunal determine aos “fornecedores essenciais” e “atletas” que se abstenham de:
Rescindir indiretamente os contratos firmados com a Requerente pelo não pagamento de créditos concursais […] ou pelo simples ajuizamento do pedido cautelar ou da futura recuperação judicial;
Recusar a fornecer bens, prestar serviços e, principalmente, de participar de partidas e de competições em que a SAF esteja inscrita, quando a recusa se fundar no não pagamento de créditos concursais ou no simples ajuizamento da cautelar ou do pedido principal;
Vale ressaltar que os “créditos concursais” citados são as dívidas anteriores ao ajuizamento do pedido.
Outra exigência feita à Justiça é para que credores sejam impedidos de “determinar a suspensão dos efeitos das cláusulas de vencimento antecipado ou de amortização acelerada e excussão de eventuais garantias nos contratos celebrados” com o Botafogo.
Na ação apresentada ao poder judiciário, à qual a ESPN teve acesso, é apresentado um panorama catastrófico das contas da SAF.
De acordo com o protocolo, o Glorioso tem um passivo total superior a R$ 2,5 bilhões, sendo cerca de R$ 400 milhões só em dívidas tributárias.
Desse montante, R$ 1,4 bilhão é referente a dívidas “já vencidas ou com vencimento próximo, até o fim do ano de 2026”, segundo os documentos apresentados à Justiça.
A situação é tão preocupante que o Botafogo admite que, com o acúmulo de cobranças, não há recursos para quitar nem mesmo a folha sarial do mês de maio.
“As dívidas se avolumam diariamente, seja com fornecedores, outras entidades desportivas e mesmo com funcionários, de modo que não há recursos necessários para o pagamento integral da folha salarial do próximo mês”, escreveram os advogados da SAF, que salientam que as execuções podem “inviabilizar a atividade” do clube.
“Diante de inúmeros débitos vencidos ou com vencimento próximos, os ativos da SAF Botafogo suportarão incontáveis ataques de credores, o que poderá resultar em um esvaziamento patrimonial e de fluxo de caixa que inviabilize o exercício da atividade empresarial”, ressaltaram.
No pedido, o Glorioso ainda diz que fechou no vermelho em seus três últimos balanços, sendo:
2023: R$ 56 milhões
2024: R$ 300 milhões
2025: R$ 287 milhões
Isso fez com que o patrimônio líquido da SAF chegasse a R$ 427,2 milhões negativos, “se deteriorando de forma acelerada nos últimos três exercícios”. Veja abaixo:
2023: -R$ 28,8 milhões
2024: -R$ 174,2 milhões
2025: -R$ 427,2 milhões
“Isso demonstra que as dívidas da SAF Botafogo superam o valor de todos os seus ativos”, apontaram os advogados.
Leia o comunicado do Botafogo SAF sobre a recuperação judicial:
A SAF Botafogo protocolou, nesta quarta-feira (22), junto ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), o pedido de Recuperação Judicial, como movimento estratégico de reorganização financeira e correção de rota para a continuidade e fortalecimento do projeto esportivo iniciado em 2022. Como parte do pedido, a SAF também solicitou a suspensão temporária do direito de voto do acionista majoritário que, por diversos meses, tem usado essa posição para obstruir a chegada de novo capital ao clube de futebol.
A medida tem como prioridade absoluta a proteção das atividades do clube e o cumprimento dos compromissos com seus atletas, funcionários e prestadores de serviço, que seguirão recebendo atenção especial ao longo de todo o processo.
A Recuperação Judicial é um instrumento legal de reestruturação empresarial, também previsto na Lei da SAF, que permite a criação de um ambiente de estabilidade, viabilizando a renegociação estruturada com credores, a reorganização do fluxo financeiro e o aprimoramento da disciplina administrativa, sempre com foco na preservação da operação.
Nos últimos quatro anos, a SAF promoveu avanços relevantes dentro e fora de campo, com conquistas históricas como a Libertadores e o Campeonato Brasileiro de 2024, além de importantes investimentos em infraestrutura, incluindo o CT e o Estádio Nilton Santos. Ao mesmo tempo, o atual cenário também reflete a frustração de entradas financeiras relevantes e a descontinuidade de determinados suportes previstos no modelo originalmente estruturado, o que impactou diretamente o fluxo de caixa da companhia e exigiu a adoção de medidas de reorganização.
Esse contexto impõe uma leitura objetiva dos desafios enfrentados, bem como a necessidade de ajustes estruturais que passam a ser conduzidos de forma organizada neste momento.
A SAF Botafogo segue em plena atividade, participando normalmente de todas as competições esportivas, sem qualquer impacto em seu calendário ou em suas operações esportivas.
Nos termos da legislação, será elaborado e apresentado um Plano de Recuperação aos credores, consolidando as medidas necessárias para o reequilíbrio financeiro da companhia.
A Administração reafirma seu compromisso com o elenco, a comissão técnica, os colaboradores e todos os profissionais que fazem parte do dia a dia do clube, bem como com a torcida do Botafogo, que é parte essencial da sua história e da sua força.
O momento exige união e foco. A SAF seguirá trabalhando para garantir a continuidade das atividades, a manutenção de um ambiente competitivo e o cumprimento responsável de seus compromissos. Com confiança na superação deste ciclo, o Botafogo seguirá em frente, com a mesma ambição e determinação que marcaram sua trajetória recente.
